Metal Reunion Zine

Blogzine fundado em 2008. Reúne notícias referentes a bandas, artistas, eventos, produções, publicações virtuais e impressas, protestos, filmes/documentários, fotografia, artes plásticas e quadrinhos independentes/underground ligados de alguma forma a vertentes da cultura Rock'n'Roll e Heavy Metal do Brasil e também de alguns países que possuem parceiros de distribuição do selo Music Reunion Prod's and Distro e sua divisão Metal Reunion Records.



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sábado, 28 de dezembro de 2024

Arquivos Explícitos- Notas Subterrâneas #15-.

Continuando a rolar pela ribanceira abaixo, se aprofundava cada vez mais nas trevas do precipício sem fim. A cada nova pirueta nascia uma nova chaga. Feridas abertas de um fundo amarelado, com um líquido espesso a escorrer. Não sentia mais a dor ou o desespero que serviam ao menos de companhia no palco sombrio da vida maldita. Apenas uma ardência queimava vez por outra para lembrar que o suplício não tinha acabado.

Chegamos ao último conteúdo da terceira temporada de ARQUIVOS EXPLÍCITOS . Em janeiro começamos a quarta temporada que irá se chamar ARQUIVOS EXPLÍCITOS - CONTOS DO PRECIPÍCIO, onde testaremos novas formas de atentados experimentais vomitados.

Nos vemos em 2025.

Fabio da Silva Barbosa 
Porto Alegre - RS
28 de Dezembro de 2024

 

terça-feira, 15 de março de 2022

ARQUIVOS EXPLÍCITOS #3 - Contos e crônicas da opera Rock do terror cotidiano.

 
Seguindo nossa saga quinzenal, aqui está o texto #3 da coluna  ARQUIVOS EXPLÍCITOS

No banco da praça

Por Fabio da Silva Barbosa

19/02/2022

08h:56min

 

Só depois de muito tempo entendi pra que servem os bancos de praça (ou, ao menos, pra quem servem). Na verdade, existem figuras variadas que por motivos diversos sentam nestes bancos. Ele, por exemplo, é uma figura constante por ali. Algumas vezes acomodava-se em um lado diferente da praça, mas eram sempre os mesmos bancos.

Chegou, como sempre, puxou um cigarro, colocou na boca e acendeu. Tragou fundo enquanto ouvia o canto dos pássaros. Depois de algum tempo, percebeu que entre um determinado número de cantos, podia ser ouvido um grito. Não era grito de dor ou prazer. Parecia um tipo incompreensível de comunicação. Vinham de trás do bambuzal.

Ficou atento.

De repente um cara saiu correndo de trás do bambuzal com uma garrafa na mão. Corria e discutia, olhando pra onde não havia nem alma penada. A distância não permitia distinguir o que preenchia a garrafa ou o quanto estava cheia.

Será que era de beber ou de cheirar? Devia ser de cheirar. Não era possível que fosse bebida. Ou então era coisa forte. Bateu até uma curiosidadezinha. Daquelas... Tipo coceira no furico. Coisa boba que dá e passa. Às vezes sim e as vezes não.

Atravessou a avenida entre os carros e sumiu do campo de visão. Ouvia apenas aquela voz berrando com o nada. Frases incompreensíveis, enigmáticas. A travessia na avenida parece ter durado um ano. Ele parava e pulava na frente dos carros que vinham em alta velocidade. A sinfonia dos pássaros agora dividia o espaço com outra sinfonia. Buzinas e gritos, vozes exaltadas... Alterações preenchendo o ar. Um problema saltitante criando distúrbios àquela hora da manhã.

De repente ele volta a toda. Traçou uma linha reta e atravessou com velocidade total. Parou um pedestre e começou a discutir. Dava para ver que o pedestre não entendia uma palavra do que ele dizia e tentava compreender a situação. Por fim ele forçou um aperto de mão, que foi retribuído com um não saber o que fazer.

Voltou correndo e mergulhou atrás do bambuzal.

Não sei como aquela aventura acabou. Pra mim terminou ali. Levantei resolvido e fui embora dali antes que algum daqueles pássaros cagasse em cima de mim. O corretor ortográfico sugere que troque “cagasse em cima de mim” por “defecasse em cima de mim”. Sugestão sem fundamento. Não ficaria tão bom. Não causaria o mesmo efeito.

Quanto ao cara do banco? Continuou lá sentado, tranquilo, fumando o cigarro e esperando alguma coisa acontecer.

Se ele apareceu de novo pela praça? Não sei. Nunca mais passei por ali.

Se costumo reler as merdas que escrevo para esta coluna? Não. Nem pra revisar. Mando como sai.

Se limpo a bunda depois de soltar um barro? Sim, sempre que possível.

Qual o número do meu sapato? Não uso sapatos.

Em 30 de março de 2022, confira aqui ARQUIVOS EXPLÍCITOS #4. 

Até lá!


 

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

ARQUIVOS EXPLÍCITOS #2 - Contos e crônicas da opera Rock do terror cotidiano.

 

Bem vindo ao segundo ARQUIVOS EXPLÍCITOS.

Relaxe, meu amigo.

Por Fabio da Silva Barbosa

01/02/2022

08h:30min

Sentou na frente da tela e posicionou os dedos sobre o teclado.

Não veio nada.

Resolveu esticar um pouco as pernas e recostou-se, meio que se jogando, nas costas da cadeira. Jogou os pés sobre a mesa e cruzou os membros.

Abriu o fecho e puxou o membro.

Segurou firme.

Tudo certo e em posição de sentido.

Começou o trabalho.

Desequilibrou.

Bateu de cabeça no chão.

Atingiu um lugar inadequado.

O sangue vazou,

escorreu...

Leves tremores.

A boca ficando branca.

Tudo apagando.

Uma leveza calmante tranqüilizava a dor aguda.

A hora finalmente chegou.

 

Mais um escritor morre cumprindo seu importante dever.


Em 15 de março de 2022, confira aqui ARQUIVOS EXPLÍCITOS #3. 

Até lá!

domingo, 26 de maio de 2024

Arquivos Explícitos- Notas Subterrâneas #1

 

Depois de duas temporadas de Arquivos Explícitos - Contos e crônicas da opera Rock do terror cotidiano, agora a coluna segue um novo caminho e, com isso, também é rebatizada. Nestas Notas Subterrâneas, os arquivos ficarão ainda mais explícitos, densos e intensos, buscando abordagens cada vez mais contundentes e registros tão afiados quanto a faca que perfura o ventre do terror cotidiano. A forma de fazer é o que realmente permanece igual. Jorros mentais catárticos, sem nenhum tipo de preparação, releitura, ajuste ou correção.  Apenas a coisa sendo expelida, vomitada. A periodicidade? Não terá.  Será algo completamente sem pompas, profissionalismo ou compromisso. O simples ato de escrever estas palavras me causa náuseas.  A ideia que elas trazem a tona me causam a mais terrível repugnância.  São apenas letras unidas, mas quando se juntam aparecem recheadas de seus significados mais sórdidos. Quer saber ainda mais o quê?  Vocês mesmos poderão tirar suas próprias conclusões ao passar os olhos pelas linhas que seguem. 

Velhos sofrimentos

A mão tremia, deixando cair da colher todo o caldo grosso e viscoso.
Perde a paciência e dá um tapa na tigela que se espatifa no chão. Começa a puxar os cabelos e os tufos saem, como se estivessem colados com velcro.        
 - UU... UU... UU... - Gritava angustiado.
Tenta se levantar, mas não consegue. O maldito pedaço de pano o amarrava pela cintura à cadeira. Dá duas fortes cabeçadas na mesa. Mais duas. E se juntam outras três. O sangue já não tingia apenas a rala cabeleira grisalha. A própria barba já estava rubra, gotejando o produto profano.
Foi aí que ele entrou no recinto. Completamente nu. Não se identificava o órgão sexual. 
- Velho nojento! Sempre criando problemas!
O corpo já jazia tranqüilo. Não sentia as dores de sempre.

Por Fabio da Silva Barbosa - Maio / 2024.

domingo, 29 de dezembro de 2024

Arquivos Explícitos: Nova Temporada "Contos do Precipício" disponível em 05/01/2025

POR ENQUANTO, CONFIRA AS POSTAGENS ANTERIORES DE ARQUIVOS EXPLÍCITOS AQUI.

O blog da editora Merda na Mão fez uma postagem resumindo a saga ARQUIVOS EXPLICITOS até aqui. Confira AQUI

Music Reunion Prods

segunda-feira, 22 de abril de 2024

ARQUIVOS EXPLÍCITOS - Contos e crônicas da ópera rock do terror cotidiano - Segunda Temporada 2023/2024 - #27 - Fim da Segunda Temporada

Na beirada

Por Fabio da Silva Barbosa

A mente andava falhando. Os acontecimentos eram lapsos temporais. Nada mais fazia sentido. Caminhava a esmo sem saber o que fazer. Tudo parecia não valer o sacrifício. Qualquer tentativa vinha com sabor de angústia, temperada a amargura. Esquecia o que acabava de dizer e não sabia o que acabava de ter feito. Se começava a ler um livro, passadas algumas páginas, já esquecia o início. O filme do dia anterior lhe parecia inédito. Logo a falta de memória veio para ficar. Aquela sensação lhe dominou de vez. A vida era sempre um espanto, rodeado de pessoas que nunca viu e sem conseguir construir um mínimo vínculo com nada ou com ninguém. Viveu um longo tempo nessa situação, até que esqueceram o portão aberto. Ele saiu correndo e foi em direção a rua. O caminhão que estava vindo, não conseguiu parar.

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*Eis que acabamos mais uma temporada de ARQUIVOS EXPLÍCITOS - Contos e crônicas da ópera rock do terror cotidiano. Nesta temporada, como já previa, a coisa foi tomando outras formas e testando outros formatos, como qualquer obra experimental em construção. Com certeza, a experiência atual irá contribuir para a próxima. E falando em próxima, aproveitem o espaço até lá para relerem os episódios da primeira e segunda temporadas que estão nos arquivos do Metal Reunion Zine. Forte abraço ao mano Alexandre Chakal que sempre está abrindo espaço neste veículo de comunicação. Fica aqui minha dica também para quem ainda não conhece a editora que fundei com Diego El Khouri, a Editora Merda na Mão. Confira nas redes antissociais ou no blog https://editoramerdanamao.blogspot.com/ .  

E quem quiser obter o meu zine, o Reboco Caído, é só entrar em contato através do meu e-mail fsb1975@yahoo.com.br. E é isso aí, pessoal. Até a próxima. E ficam aí estas dicas para irem curtindo até nosso retorno.


segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Arquivos Explícitos - Contos do Precipício #20 - FIM



Os melhores não são os que recebem flores, medalhas e troféus.
Os melhores são os que nunca foram premiados ou agraciados, nunca receberam nada em troca e continuam sem desistir
mesmo assim
porque isso, lhes dá algum sentido
mesmo que vago de razão.

........

Mais ciclos se fechando enquanto outros começam. Ruínas, destroços, escombros.... Ratos e insetos peçonhentos por toda a parte. É nesse clima que terminamos mais uma temporada destes arquivos malditos e desgraçados, podres e desesperados. Indo rumo a lugar nenhum, sem plano ou objetivo, desconhece o por vir. Sabe apenas que mais um capítulo chega ao fim.
Apenas vira a folha e se depara com a página em  branco. Ou nem isso.

Breve será divulgado aqui uma idéia de transformar as temporadas de Arquivos Explícitos em um arquivo único. Até lá, ou quem sabe, não.

Por Fabio da Silva Barbosa
Porto Alegre  - RS
Na temperatura de -2°C, em uma quinta-feira qualquer no mês  de Julho de 2025.

domingo, 13 de fevereiro de 2022

ARQUIVOS EXPLICITOS #1 - Contos e crônicas da opera Rock do terror cotidiano.

 
Há tempos atrás, tínhamos aqui uma coluna chamada “Navalha na Carne”, publicamos alguns textos de autores diversos, mas devido a correria do dia- a- dia, não conseguimos colocar mais conteúdos e ficou para trás nas postagens do Metal Reunion Zine.

Em 2022, temos a honra de iniciar a coluna “ARQUIVOS EXPLÍCITOS - Contos e crônicas da opera Rock do terror cotidiano.”

Coluna que trará textos do poeta, escritor e locutor, Fabio da Silva Barbosa.

Entao vamos ao nosso texto inaugural. Boa leitura.

 Vômitos insólitos:

Fico imaginando alguma forma de me infiltrar e colaborar para o desconforto, para desacomodar e incomodar quem quer ficar fingindo que está tudo bem. Tanta gente mais sensível  se matando por simplesmente não suportar o que nos oferecem como as melhores opções... Um desejo de não se enquadrar nessa insanidade normalóide.... A sede pelo autoconhecimento... Então foi se formando, se construindo, a coluna ARQUIVOS EXPLÍCITOS - Contos e crônicas da opera rock do  terror cotidiano. A ideia é estar aqui, de quinze em quinze dias, descascando a banana atômica na frente de quem quiser ver. Um trabalho voltado a raiva, aos vícios, a pornografia e a tudo o mais que você finge que nem existe... Coisa de gente doente que fica imaginando perversões alienígenas. Um convite para você entrar no subterrâneo pútrido do horror ordinário, comum, corriqueiro... A cada coluna, aquela sensação de ter sido atingido na boca do estômago.... e o vômito quente sendo expelido entre os dentes.... Somente contos, crônicas e merdas em geral imaginadas para estragar sua quinzena.  Abriremos o trabalho com AZEDUME, essa terrível história de dor.

 AZEDUME

Por Fabio da Silva Barbosa

Gastou novamente o pouco dinheiro que tinha com drogas de qualidade duvidosa.  Deixou para abrir a bucha quando a ponta já tivesse queimado os dedos e a própria boca. Esticou três linhas grandes – Lacraias bailarinas e sedutoras. A trilha sonora já estava organizada.  A banda portuguesa “Vômito” jorrando “Eu não quero” por toda a eternidade. Terminava e começava sempre de novo e de novo.

Mandou a primeira enquanto ouvia a mensagem.

“Eu não quero ser soldado

Eu não quero ser soldado

Eu não quero ser soldado

Eu não quero ser soldado”

Não sabia como iria sobreviver sem álcool e cigarros nos próximos dias. Não tinha uma moeda se quer... e mesmo se tivesse... Impossível aquentar as coisas como estão.
Pensou em um milhão de coisas ao mesmo tempo. Resolveu partir pra segunda. O prazer e o desconforto copulavam freneticamente no galope do sexo selvagem.

Lembrou da garrafa de cachaça que estava pelo final. Ainda restava quase uma dose.

Virou a garrafa de cabeça para baixo e sacudiu para ver se saía mais alguma coisa. Só faltou torcer.

Revirou as gavetas para ver se encontrava alguma boleta perdida.

Pensou no momento em que vivia. Governo assumidamente autoritário (A diferença histórica consistia nesta palavra: assumidamente), crise, repressão, pandemia... Só amargor.

E nas caixas de som continuava martelando a mensagem punk libertária:

 

“Eu não quero ser soldado

Eu não quero ser soldado

Eu não quero ser soldado

Eu não quero ser soldado”

Olhou para a terceira linha. Era a vez. Fuuuunnnnngggggaaaaaa....

 

Fim do primeiro ato.

Fim de mais uma noite.

Desce a cortina sobre o corpo convulsivo e a mente agoniada.

Fica o desejo de quero mais.

Mas nas caixas continua sendo gritado aquele desejo mais puro... Sendo berrada aquela afirmação que seria a única certeza.

 

“Eu não quero ser soldado

Eu não quero ser soldado

Eu não quero ser soldado

Eu não quero ser soldado”

 

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*Fabio da Silva Barbosa atua em diversas frentes. Lançou e-books, livros, zines, jornais, PDFs... veículos de comunicação em vários formatos. Organizou eventos, faz programas de rádio, produziu vídeos... Entre suas realizações está o zine Reboco Caído. Este zine ganhou o prêmio Fanzine 2016, no segundo Gibifest de Alvorada, em 2017. O Reboco Caído circula em versão impressa e digital, já conta com mais de dez anos de existência e passou do número 60. Além do trabalho solo, Fabio atua em coletivos e fundou com Diego El Khouri a Editora Merda na Mão.

 

Fonte

Metal Reunion Zine

quinta-feira, 14 de abril de 2022

ARQUIVOS EXPLÍCITOS #5 - Contos e crônicas da opera Rock do terror cotidiano.

 
Bem vindo a quinta edição da coluna ARQUIVOS EXPLÍCITOS - Contos e crônicas da opera Rock do terror cotidiano de Fabio da Silva Barbosa.

 No quartinho escuro

Por Fabio da Silva Barbosa

Já sem unhas e dentes, com alguns tufos de cabelos arrancados. Tremia com a corrente elétrica passando por seu corpo pendurado no pau. Parecia um animal pronto para ser assado inteiro. Um animal grotesco, completamente deformado. Deformado à porrada. O sangue pingava, tingindo a chão encardido. Os olhos furados não enxergavam mais o ambiente escuro e macabro que o rodeava. As orelhas já haviam sido arrancadas. Os homens em volta perguntavam algo que ele não ouvia mais. Pareciam gozar com a sua agonia. Mas garantiam que era tudo pela ordem e progresso. Que ordem era essa? Progresso de quem? Seu, com certeza, não era. Mais um pouco de eletricidade, mais tremedeira, mais agonia... Tudo pela ordem e progresso... e pelos homens de bem... amém...

 Nos vemos novamente sábado 30 de abril de 2022. Até lá.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

ARQUIVOS EXPLÍCITOS SERÁ LANÇADO EM LIVRO. CONFIRA A CAPA.

No 0primeiro dia do mês de setembro do ano de 2025, fecharemos o ciclo da coluna ARQUIVOS EXPLÍCITOS, em sua última temporada: Contos do Precipício.

Buscando resguardar essa saga de escritos do poeta e escritor marginal Fábio da Silva Barbosa, e seguindo o mesmo conceito utilizado na coluna Navalha na Carne, a Metal Reunion Books e Zines irá compilar todas as temporadas em um livro físico.

Apresentamos aqui a capa do livro, riscada à mão livre e editada digitalmente por Alexandre Chakal.

Em breve, estaremos informando as próximas etapas para o lançamento desse escrito indigesto, porém necessário — em tempos em que o descaso e a apatia substituem facilmente a humanidade e a empatia.

Até lá.

Metal Reunion Books e Zines



 

domingo, 5 de janeiro de 2025

Arquivos Explícitos - Contos do Precipício #1

Então começamos mais um atentado ARQUIVOS EXPLÍCITOS. O fluxo tá louco, as mudanças constantes na mutação compulsiva e tudo não para de girar. Então chegamos aqui, em outro formato da velha coluna apodrecida. Espero que tenham desconfortos e saiam das ridículas caixinhas, bolhas decrépitas e das mofadas zonas de conforto. 

-Tem uma moeda?
-Se você soubesse da minha situação, chorava.
-Pior que a minha não é.
-Como você pode saber?
-Tô te dizendo.
-Não tem como afirmar
-Não vale a pena ficar disputando desgraça.
-Nem faz sentido.
-Então pronto, tá resolvido.
-Vou tentar a sorte com os playboys ali na frente.
-Vai firme.

Fabio da Silva Barbosa 
Porto Alegre -RS
Janeiro / 2025

sexta-feira, 13 de junho de 2025

Arquivos Explícitos - Contos do Precipício #13

Arquivos Explícitos 13 na sexta-feira 13.

Lá no fundo do abismo 

 perdido no labirinto mais peçonhento e claustrofóbico
ele se fecha mais uma vez em seu pútrido casulo
até virar a chave da morte sobre si mesmo
permitindo que a criatura bestial
 rompesse a película viscosa e sebenta
e saísse em um vôo sombrio e incerto
onde a dúvida guia cada passo
que se desfaz durante o próprio andar
nessa estrada sem rumo ou sentido
sem necessidades de tratados, certezas ou direções 
debochando das convicções 
se afastando de toda a positividade tóxica 
sabendo que a lama oferecida pela vida
tem cheiro de merda
e gosto de fel.

Por Fabio da Silva Barbosa
Porto Alegre - RS

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

ARQUIVOS EXPLÍCITOS #22 - Contos e crônicas da opera Rock do terror cotidiano.

 
Todos os caminhos levam a lugar nenhum

Mais um dia deitado na cama sem conseguir levantar. Por quarenta minutos olhando o teto enquanto mentaliza a palavra levanta. Mas o corpo não responde. Consegue virar para o lado Agora é a parede no campo de visão. Já conhece cada teia de aranha, cada imperfeição na pintura, cada mancha de mofo... cada detalhe praticamente invisível. Mais quarenta minutos se passaram. Finalmente conseguiu “levantar”. Estava sentado. Não seria mais um dia afundado no nada absoluto. Conseguiria reagir. Tinha de sair do fundo do poço que fica no fundo da caverna mais profunda. Primeiro tinha de escapar daquele casulo obscuro que o prendia e sufocava. Não seria fácil. E sair dali para que? Não adiantava mais. Já era. Não tinha mais idade para acreditar em Papai Noel ou Coelhinho da Páscoa. Gastar energia tentando escapar daquelas correntes seria inútil. Estava perdido em um labirinto de paredes altas e becos sem saída. Muros impossíveis de pular. Todas as portas trancadas. Criaturas carniceiras já sentiam o aroma do seu cadáver. Sentiu o corpo tombar. De novo em decúbito lateral. O gosto azedo na boca, o cheiro de podre no ar. Tanto esforço para nada. Não tinha mais de tentar. Precisava entender isso. Não havendo mais motivos, percebe-se que a motivação é a mentira usada para prolongar esta existência sem sentido. É muito melhor não se debater. Apenas afundar no torpor melancólico que acaba sempre por vencer. Envolvendo-nos na penumbra, que cada vez mais vira escuridão, viramos mortos vivos. Cada vez mais mortos, cada vez menos vivos. Parece até estar bom assim. Desânimo total, fadiga, desesperança, nenhuma perspectiva lhe agrada, nada lhe preenche, nada lhe apetece. Só resta um cansaço de tudo. Só um cansaço que parece nunca ter fim.

 

Fechamos o ano de 2022 com este chá de fel e aproveitamos para avisar que ficaremos algumas quinzenas sem aparecer por aqui, nesta coluna. Depois de 22 colunas destilando escritos feitos exclusivamente para o espaço e sendo enviados do jeito que saíam, sem nenhum tipo de revisão ou ajuste (Com exceção de Conversa Séria com Deus – Feito em parceria com Alexandre Chakal para seu novo livro, SEUS DEUSES NÃO ME EXCITAM), eis que uma pausa se faz necessária para que consiga me reorganizar. Assim como o cão que precisa lamber suas feridas, ou o movimento de guerrilha que precisa se refugiar para treinar até estar forte o suficiente e promover novo ataque, ou o iogue que precisa meditar nos altos do Himalaia, tenho de resolver algumas questões e contra tempos antes de continuar. Mas aguardem, pois logo em breve teremos novos e tétricos Arquivos Explícitos para feder neste espaço.

Fabio da Silva Barbosa

quinta-feira, 28 de julho de 2022

ARQUIVOS EXPLÍCITOS #12 - Contos e crônicas da opera Rock do terror cotidiano.

 
Monólogo do Velho Escritor

Por Fabio da Silva Barbosa

 Mais uma vez o Velho Escritor se encontra inerte diante das teclas. Não consegue produzir uma linha que seja. O corpo imóvel. Os dedos parados. Os olhos perdidos na luz hipnotizante. O Velho Escritor está novamente em crise. Sua vida e a crise tornaram-se uma coisa só. Única substância capaz de prendê-lo nas profundezas mais abissais do nada absoluto. O vazio preenchendo cada cantinho - com todo esmero e cuidado. A escuridão. O hálito inconfundível da morte a soprar em seus ouvidos – contando segredos absurdos.

Pensou em revisitar velhos escritos... Não era essa a proposta. A proposta era uma coisa inédita por quinzena - algo criado especialmente para os Arquivos Explícitos. A única exceção até o momento foi com o texto escrito em parceria com o mano Alexandre. O resto foi tudo cagado, vomitado, expelido e exorcizado especialmente para esta coluna, pensando nela e sem releitura, acertos ou segundas versões. A ideia é deixar fluir da maneira mais insana possível.

Pensou em escrever um conto de terror sobre Konga, a mulher gorila. Essa já é uma  idéia antiga e muito bem vinda. Tem uma ligação forte com a infância do Velho. Mas ainda não seria dessa vez. Ficaria mais pradiante. Espero que a máquina biológica espere.

Pensou em dar continuidade no seu projeto de livro infantil para adultos lerem. Deixaria a coisa coluna para outra ocasião. Mas não podia fazer isso. Estava com essa ideia há muito tempo assombrando seu crânio já extremamente atormentado. Só precisava dar forma, elaborar.

Acende um cigarro e mendiga um pouco de carinho a brasa mórbida que segue a lhe matar. Não tem mais condições. Nada tem. O que nunca teve sentido, virou a própria falta de sentido. Não é mais como antes. Não existe mais o surf de carro e a guerra de saco de lixo. Tudo isso é coisa do passado. Nada mais existe. O vazio atinge o patamar do belo, de tão fúnebre.

Resolve a questão. Fará um retrato de si mesmo. Mesclará retrato e pintura em uma composição sórdida. A poesia não pode faltar. Ela nunca falta. Seria como acreditar que a vida pode deixar de ser amarga. Novamente irá se expor. Exibirá sua nudez como quem ilustra todo o flagelo humano.

Uma corrente elétrica impulsiona seu desgastado corpo senil e as palavras começam a surgir na tela fria do computador. Cores da desgraça, do sangue, dor e angústias preenchem o espaço vazio, sideral.

Nasce mais um conteúdo para esta coluna blasfema. 

ATÉ A PRÓXIMA!

sábado, 15 de março de 2025

Arquivos Explícitos - Contos do Precipício #8

 

Passo as páginas e os olhos deslizam pelas linhas juntando as ideias. Viajo pelas letras e formo as palavras decifrando os códigos.  Cada página deixa escorrer  estes contos aterradores. A tinta se transforma em lama podre e inunda a mente de quem lê, entrando pelos olhos e demais orifícios que encontra pela frente. São ecos vindos do fundo do precipício. Registros destes arquivos explícitos que já contam com algumas temporadas. Cada uma trazendo infortúnios e pragas mil, suplícios e torturas infinitas. 

Passei por um destes registros, dos que nem lembrava mais, e logo uma centelha diabólica se acendeu em meu coração, enquanto rememorava cada detalhe. Era um conto poético que narrava os suplícios de um homem que não queria fazer parte do sistema e era duramente penalizado por suas atitudes e convicções.  Foi torturado e metodicamente ofendido. Seu corpo depositado na parede, onde se encontra dando de comer aos vermes. 

Fui até o porão e, completamente ungido pela passagem que acabara de ler, voltei a trabalhar nos explosivos. Logo iriam aprender a não mexer com um dos nossos.

 Todo apoio aos que não se ajustam e tem ânsias de vômito  só de pensar em fazer parte, aderir, ser a menor das engrenagens.

Por Fabio da Silva Barbosa - Porto Alegre - RS

Março de 2025


sábado, 1 de abril de 2023

ARQUIVOS EXPLÍCITOS - Contos e crônicas da ópera rock do terror cotidiano - Segunda Temporada 2023 - #1

 
Iniciamos hoje a segunda temporada de ARQUIVOS EXPLÍCITOS - Contos e crônicas da ópera rock do terror cotidiano. Escolhi o dia primeiro de abril para iniciar esta segunda temporada por ser um dia lembrado por muitos como dedicado a mentira, a zombaria, ao escárnio, ao deboche, brincadeiras de mau gosto... Enfim... Foi só algo que passou por minha cabeça e que, mesmo não fazendo o menor sentido, acabou sendo. Tá aí o primeiro episódio desta nova etapa. Quantos episódios serão? O mesmo número que o anterior? Seguirá na mesma linha? Quando terminar esta, terão outras temporadas? De nada disso sei. Nem sei se continuarei a respirar amanhã, quanto mais estes detalhes. O que posso adiantar é que cada temporada continuará separando os episódios por quinzenas enquanto durar. Ou seja... A cada quinze dias teremos novas desventuras dos seres desencantados que povoam a terra. Também manterei a metodologia de escrever de uma só vez, sem ficar relendo ou fazendo ajustes e correções. Mais do que isso não arriscaria afirmar.

Fabio da Silva Barbosa

 

Memórias e esquecimentos

Por Fabio da Silva Barbosa

 

Era hábito comum indivíduos que nunca se viram dividir as poucas mesas que entulhavam o pequeno salão. Ficava em um local de passagem no centro da cidade. Pessoas de todos os tipos e todas as partes passavam por ali. As mais diferentes filosofias e estilos de vida repartiam o espaço diminuto. A fumaça dificultava a respiração em dias de lotação máxima. Naquele calor infernal então... Ele chegou perguntando se podia ocupar a cadeira do lado oposto da mesa onde eu estava. Perguntou já sentando, se jogando por cima de tudo. Apoiou o copo de cachaça quase entornando o líquido amarelado. Com certeza ele havia escolhido uma da prateleira de conservas.

- Acho que já te vi por aqui. – Falou logo que conseguiu se ajeitar na cadeira.

- Vez por outra passo pelo pedaço e dou uma parada. – Respondi sem muito entusiasmo. 

- Frequento esta zona há mais de trinta anos. Na época boa essa rua era só bar. Bar, puteiros e produtos roubados. Tinha a rapaziada dos entorpecentes também. Falando em entorpecentes... Uma vez estava em um bar que existia logo ali na esquina. O Cachorro Louco tava tocando com sua banda no palquinho improvisado que ficava do lado do banheiro. Tocando era modo de dizer. Era uma banda punk autêntica, de raiz... Radical mesmo! Barulho da porra! O pessoal se matando de tanto agitar. Tava um calor tipo hoje. Fiquei pelo balcão tomando uma. Daí veio um cara e encostou do meu lado. Achei que parecia com aquele dos Stones. Como é o nome dele mesmo?

Nesse ponto já tinha fechado o livro que sorvia junto da cerveja e prestava atenção em meu novo companheiro de prosa. Fiz um movimento com os ombros demonstrando que não fazia a menor ideia de qual integrante ele falava. Mas ele continuou sem se importar com isso. 

- O sujeito era engraçado e ficamos por ali bebendo, falando merda e vendo o show. Daqui a pouco ele foi ao banheiro e um conhecido veio rápido em minha direção. Perguntou se eu sabia quem era aquele careta com quem estava trocando ideias. Expliquei que tinha acabado de conhecer, mas parecia boa gente. Então se fez a revelação. O figura era policial disfarçado e eu ali, com os bolsos cheios de tóxicos.

Nesse ponto ele explodiu em uma estrondosa gargalhada e quase virou a porra toda. Mas logo sua expressão mudou e voltou a ficar sério, estudando meu rosto, esquadrinhando cada ruga. Não sabia muito bem o que fazer e soltei um “E aí?”. Ele pareceu não perceber minha pergunta e emendou outro caso.

- Ruim mesmo foi quando tomei um tiro no pé. Estava ajudando o dono a fechar o bar...

- O da esquina?

- Que esquina, rapaz?

- O bar que você falou que era ali na esquina. Onde rolou a história do policial.

- NNããããooo... Esse era mais pra cá. Do outro lado da rua. – Deu outro gole na cachaça e continuou. – Daí um cara começou a se encarnar em mim. Ensebando mesmo. Me pegou pra Cristo. Dei um chega pra lá nele, mas isso só piorou a situação. Era um tipo cheio de problemas com a polícia. Me entende? O corpo dele era todo costurado. Cheio de marcas de facadas. Daí ele puxou a arma e deu um tiro no meu pé. Imagina isso? Sorte que foi um tiro de vinte e dois. Daí foi aquela gritaria e o pessoal que me conhecia intercedeu ao meu favor... Sei te dizer que sentei e fiquei alguns segundos olhando pro meu pé. Aquilo não parecia nada bom. Quando levantei de novo a cabeça, ele já tinha sumido. O dono bar pediu pra Cachorro Louco e Fiapo: “Leva esse traste daqui. Não preciso de mais um baleado nesse bar. Carrega pra um hospital”. E assim fizeram. Só que fomos andando. Imagina andando com um tiro no pé. Ainda bem que era de vinte e dois. Quando avançamos uma quadra, o diabo do cara saiu de trás da lixeira. Era uma lixeira daquelas grandes, sabe? Daí ele veio com um pedaço de pau na minha direção. Fiapo pulou entre nós dois e pediu calma. Mas como pedir calma prum demônio daqueles? O sujeito vinha em minha direção como se fosse um trem. Sorte que Cachorro Louco viu aquele tijolo no canto da calçada e acertou em cheio a cabeça do Satanás.

- E ele apagou?

- Vou te dizer que aquilo era bicho tão ruim que só deu uma tonteada. Mas foi o que a gente precisava pra desaparecer da situação.

Nesse ponto levantou virando o que sobrou no copo. Percebi que estava indo embora e perguntei seu nome. Ele respondeu e perguntou o meu. Nos cumprimentamos e o vi sumindo, mergulhando na multidão.

Qual era o nome dele? Não lembro. Esqueci quase em seguida.


Até a próxima!

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

ARQUIVOS EXPLÍCITOS #20 - Contos e crônicas da opera Rock do terror cotidiano.

O Velho Escritor volta a atacar

Por Fabio da Silva Barbosa

 

Desde que decidiu pelo ostracismo radical, o Velho Escritor foi sendo esquecido aos poucos. Impressionante como a memória das pessoas vai se apagando com cada vez maior facilidade. Não era mais convidado para entrevistas, programas, eventos... O que era até melhor, pois não precisava ficar explicando o motivo de não ir. Não se sentia animado a participar de qualquer coisa, de nenhuma forma. Estava tranquilo no fundo de sua caverna, dentro de seu casulo, do jeito que preferia naquele momento.  Mas eis que veio o convite para uma entrevista. A primeira ideia foi recusar. Acabou aceitando. Seria uma coisa curta, seguindo a tendência de que tudo tem de ser o mais rápido possível. O desagrado só aumentou. O entrevistador diria uma palavra e ele teria de devolver com a primeira coisa que lhe viesse a cabeça.  Tentou ficar o menos desconfortável possível.

 

- Futuro.

 

- Não existe luz, não existe saída.

 

- Esperança.

 

- Não lembro ter esse tipo de coisa em qualquer momento da vida e nunca senti falta.

 

- Felicidade.

 

- Momentos rápidos e cada vez mais raros.

 

- Paz.

 

- Inércia altamente desinteressante.

 

- Humor.

 

- Cada vez pior.

 

- Amor.

 

- Tem vendido bem ultimamente, mas nunca foi a minha praia.

 

- Vida.

 

- Se aproximando ao fim.


 A entrevista ficou como se nunca tivesse acontecido. O entrevistador alegou que o lance agora são as boas vibrações e que as pessoas preferem personagens que tragam bons sentimentos em uma entrevista. Perguntou se o Velho Escritor queria fazer uma nova, com respostas mais positivas. Ele respondeu que não. Acabara de lembrar porque não dava mais entrevistas.

Nos vemos novamente em Dezembro de 2022.

sábado, 27 de agosto de 2022

ARQUIVOS EXPLÍCITOS #14 - Contos e crônicas da opera Rock do terror cotidiano.

 
Lembranças esquecidas

Por Fabio da Silva Barbosa

 Como os ventos que lançam o barco contra o rochedo fatal, meus pensamentos são arremessados de volta ao encontro da triste carniça que se decompõe em vida. A tempestade cerebral que assombra meu velho crânio, me choca de cara com o personagem de si mesmo. Novamente está esparramado na cadeira, diante da fria tela luminosa, como o marujo em seu eterno naufrágio, como uma melancólica canção do mar, um terno encardido e amassado, o pirata caolho e o convés a inundar. A coluna, há muito já tinha perdido o rumo e as coisas estavam completamente fora de controle. Nada fazia sentido. Isso era apenas mais uma dúvida na velha cabeça carcomida. Será que agora a coluna estava indo para onde deveria e o caos criador era a melhor metodologia para tal projeto póstumo? Será que algo carece de sentido? Será que ele não estava entendendo nada? Entendendo errado? Havia algo para entender? Já que o cadáver fala em vida, espumando a angústia e o escárnio pelo canto da boca, nada mais natural que elaborar um grande funeral. Terá cachaça, jogatina e outras ocasiões e acontecimentos. Aqui jaz o Velho Escritor, o Velho Poeta, o Velho, o Escritor e o Poeta. Sua carcaça convertida em comida para os vermes que em breve celebrarão mais este banquete. Se ele queria ser cremado? Sim, mas quem se importa. Ia sair muito caro. Separemos apenas sua desgastada mandíbula para cinzeiro e tampo da cabeça que dará ótima cuia para tomar vinho barato. Da carne quero só um naco. Afinal, o preço que está o bife... O que que há? Não vai querer? Então fico com o meu e com o seu. Tudo acertado. Agora vamos para a mesa e comecemos a rolar os dados. Aposto que vai abrir com os três seis, para inaugurar mais esta noite de pecado.

Nos vemos em setembro de 2022!

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Arquivos Explícitos- Notas Subterrâneas #8 -.

Subi as escadas da pensão e fui direto para a cozinha.  Comprei umas salsichas na promoção.  Era um pacote enorme, daqueles que não acabam nunca para um cara sozinho. Joguei algumas na água e o cheiro nauseabundo de salsicha barata começou a encher o ar, me preparando para o pior: A hora de comer e sentir aquele gosto de morte ransosa que vinha provocando forte asia e uma sensação de possuir um câncer estomacal. Sempre fui um anti proibicionista. Por mim a maconha, a cocaína, o crack... tudo devia ser liberado. Mas coisas como salsicha e margarina tinham de ser banidas do universo gastronômico.  E pensar que vendem isso livremente nos mercados, como se fosse comida, algo que alimente. Acho bacana os caras que cozinham por aqui e deixam o ar perfumado com suas peripécias culinárias.  Pena que sou devoto do grude típico de solteiros preguiçosos e que ganham o insuficiente para comer o mês inteiro, sempre procurando algo barato e que dê para fazer da forma mais simples possível, contabilizando para sobrar o da cerveja e do cigarro. Alguns amigos veganos tentam me explicar formas baratas de me alimentar e a importância de uma relação saudável com a comida, mas ainda não estou afim de uma relação complexa  com o rango ou com o que quer que seja. Jogo alguma merda que dê para ficar pronto só borbulhando na água e junto algum lixo enlatado, instantâneo ou congelado.  Preparo um grude que disfarce a sensação de fome e mando pro bucho inchado. Quando vi o preço do pacotão de salsichas, a primeira coisa que pensei foi a necessidade de comer por muitos dias e que o valor ajudaria no problema do orçamento apertado até o final do mês.  Como havia muito tempo que não me empanturrava destas iguarias que dão ao nosso corpo a sensação de estar se preenchendo com algo podre e estragado, o passar dos dias me trouxe os efeitos da intoxicação e o desconforto daquele odor e paladar pestilento. Olhei um pouco mais a água começando a ficar com a típica cor bizarra que solta da salsicha e aquela espuma gosmenta que brota nos cantinhos aqui e ali. Quando achei que estavam inchadas o bastante, joguei no prato e senti saudades dos velhos ovos cozidos. Já estava com a impressão que um pinto sairia pelo meu rabo no próximo peido que desse, mas era melhor que ficar parecendo que passou sebo velho nos lábios a cada ingestão deste tipo de veneno.

Fabio da Silva Barbosa 
Porto Alegre - RS
Outubro/2024

segunda-feira, 13 de junho de 2022

ARQUIVOS EXPLÍCITOS #9 - Contos e crônicas da opera Rock do terror cotidiano.

Afundando

Por Fabio da Silva Barbosa.

 

-Mas o emprego é bom

-Mas eu não quero um emprego

- Mas você não pode ficar assim.

- Por que não?

- Porque você está afundando.

- Talvez seja o que quero. Você já pensou nisso?

- Desse jeito você vai acabar na sarjeta.

- Não me parece tão ruim quanto as opções apresentadas.

- Não é possível que é isso que você queira.

- Não acho possível que uma pessoa queira ter um patrão determinando a hora até de ir ao banheiro.

- Mas você pode ter uma vida organizada através disso, ter salário, carteira assinada, uma família, pagar suas contas em dia, ter plano de saúde...

- Que horror.

- Mais horrível é acabar na rua da amargura.

- Gosto da rua e não vejo problema na amargura.

- Assim você não vai conseguir ser feliz.

- Desconheço a palavra.

- Estou apenas querendo ajudar, querendo o melhor para você.

- Não quero ajuda e sei o que é o melhor para mim.

- Tem certeza disso.

- Certeza nunca. Nem disso, nem de nada.


No vemos novamente em 28/06/2022