Metal Reunion Zine

Blogzine fundado em 2008. Reúne notícias referentes a bandas, artistas, eventos, produções, publicações virtuais e impressas, protestos, filmes/documentários, fotografia, artes plásticas e quadrinhos independentes/underground ligados de alguma forma a vertentes da cultura Rock'n'Roll e Heavy Metal do Brasil e também de alguns países que possuem parceiros de distribuição do selo Music Reunion Prod's and Distro e sua divisão Metal Reunion Records.



sábado, 1 de abril de 2023

ARQUIVOS EXPLÍCITOS - Contos e crônicas da ópera rock do terror cotidiano - Segunda Temporada 2023 - #1

 
Iniciamos hoje a segunda temporada de ARQUIVOS EXPLÍCITOS - Contos e crônicas da ópera rock do terror cotidiano. Escolhi o dia primeiro de abril para iniciar esta segunda temporada por ser um dia lembrado por muitos como dedicado a mentira, a zombaria, ao escárnio, ao deboche, brincadeiras de mau gosto... Enfim... Foi só algo que passou por minha cabeça e que, mesmo não fazendo o menor sentido, acabou sendo. Tá aí o primeiro episódio desta nova etapa. Quantos episódios serão? O mesmo número que o anterior? Seguirá na mesma linha? Quando terminar esta, terão outras temporadas? De nada disso sei. Nem sei se continuarei a respirar amanhã, quanto mais estes detalhes. O que posso adiantar é que cada temporada continuará separando os episódios por quinzenas enquanto durar. Ou seja... A cada quinze dias teremos novas desventuras dos seres desencantados que povoam a terra. Também manterei a metodologia de escrever de uma só vez, sem ficar relendo ou fazendo ajustes e correções. Mais do que isso não arriscaria afirmar.

Fabio da Silva Barbosa

 

Memórias e esquecimentos

Por Fabio da Silva Barbosa

 

Era hábito comum indivíduos que nunca se viram dividir as poucas mesas que entulhavam o pequeno salão. Ficava em um local de passagem no centro da cidade. Pessoas de todos os tipos e todas as partes passavam por ali. As mais diferentes filosofias e estilos de vida repartiam o espaço diminuto. A fumaça dificultava a respiração em dias de lotação máxima. Naquele calor infernal então... Ele chegou perguntando se podia ocupar a cadeira do lado oposto da mesa onde eu estava. Perguntou já sentando, se jogando por cima de tudo. Apoiou o copo de cachaça quase entornando o líquido amarelado. Com certeza ele havia escolhido uma da prateleira de conservas.

- Acho que já te vi por aqui. – Falou logo que conseguiu se ajeitar na cadeira.

- Vez por outra passo pelo pedaço e dou uma parada. – Respondi sem muito entusiasmo. 

- Frequento esta zona há mais de trinta anos. Na época boa essa rua era só bar. Bar, puteiros e produtos roubados. Tinha a rapaziada dos entorpecentes também. Falando em entorpecentes... Uma vez estava em um bar que existia logo ali na esquina. O Cachorro Louco tava tocando com sua banda no palquinho improvisado que ficava do lado do banheiro. Tocando era modo de dizer. Era uma banda punk autêntica, de raiz... Radical mesmo! Barulho da porra! O pessoal se matando de tanto agitar. Tava um calor tipo hoje. Fiquei pelo balcão tomando uma. Daí veio um cara e encostou do meu lado. Achei que parecia com aquele dos Stones. Como é o nome dele mesmo?

Nesse ponto já tinha fechado o livro que sorvia junto da cerveja e prestava atenção em meu novo companheiro de prosa. Fiz um movimento com os ombros demonstrando que não fazia a menor ideia de qual integrante ele falava. Mas ele continuou sem se importar com isso. 

- O sujeito era engraçado e ficamos por ali bebendo, falando merda e vendo o show. Daqui a pouco ele foi ao banheiro e um conhecido veio rápido em minha direção. Perguntou se eu sabia quem era aquele careta com quem estava trocando ideias. Expliquei que tinha acabado de conhecer, mas parecia boa gente. Então se fez a revelação. O figura era policial disfarçado e eu ali, com os bolsos cheios de tóxicos.

Nesse ponto ele explodiu em uma estrondosa gargalhada e quase virou a porra toda. Mas logo sua expressão mudou e voltou a ficar sério, estudando meu rosto, esquadrinhando cada ruga. Não sabia muito bem o que fazer e soltei um “E aí?”. Ele pareceu não perceber minha pergunta e emendou outro caso.

- Ruim mesmo foi quando tomei um tiro no pé. Estava ajudando o dono a fechar o bar...

- O da esquina?

- Que esquina, rapaz?

- O bar que você falou que era ali na esquina. Onde rolou a história do policial.

- NNããããooo... Esse era mais pra cá. Do outro lado da rua. – Deu outro gole na cachaça e continuou. – Daí um cara começou a se encarnar em mim. Ensebando mesmo. Me pegou pra Cristo. Dei um chega pra lá nele, mas isso só piorou a situação. Era um tipo cheio de problemas com a polícia. Me entende? O corpo dele era todo costurado. Cheio de marcas de facadas. Daí ele puxou a arma e deu um tiro no meu pé. Imagina isso? Sorte que foi um tiro de vinte e dois. Daí foi aquela gritaria e o pessoal que me conhecia intercedeu ao meu favor... Sei te dizer que sentei e fiquei alguns segundos olhando pro meu pé. Aquilo não parecia nada bom. Quando levantei de novo a cabeça, ele já tinha sumido. O dono bar pediu pra Cachorro Louco e Fiapo: “Leva esse traste daqui. Não preciso de mais um baleado nesse bar. Carrega pra um hospital”. E assim fizeram. Só que fomos andando. Imagina andando com um tiro no pé. Ainda bem que era de vinte e dois. Quando avançamos uma quadra, o diabo do cara saiu de trás da lixeira. Era uma lixeira daquelas grandes, sabe? Daí ele veio com um pedaço de pau na minha direção. Fiapo pulou entre nós dois e pediu calma. Mas como pedir calma prum demônio daqueles? O sujeito vinha em minha direção como se fosse um trem. Sorte que Cachorro Louco viu aquele tijolo no canto da calçada e acertou em cheio a cabeça do Satanás.

- E ele apagou?

- Vou te dizer que aquilo era bicho tão ruim que só deu uma tonteada. Mas foi o que a gente precisava pra desaparecer da situação.

Nesse ponto levantou virando o que sobrou no copo. Percebi que estava indo embora e perguntei seu nome. Ele respondeu e perguntou o meu. Nos cumprimentamos e o vi sumindo, mergulhando na multidão.

Qual era o nome dele? Não lembro. Esqueci quase em seguida.


Até a próxima!

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