Estávamos em baixo de uma árvore, na frente do bar do Baiano. Não era esse o nome, mas era assim que todo mundo conhecia a bodega. Marola, Guero e Gata escutavam enquanto eu explicava os motivos de minha ida. Entre eles, destaquei a falta que sinto do ambiente urbano, de pessoas aglomeradas pelas calçadas se acotovelando e mal humoradas, dos grandes engarrafamentos, buzinas, sirenes, do perigo em cada esquina, do caos... e de como isso serve como laboratório para um escritor que gosta de registrar a micro história, pequenos fatos do cotidiano que aparentemente não tem grande importância, mas que refletem algo muito maior. Além do diálogo do meu lado escritor com o jornalista, isso tem a ver com antropologia e outras ciências que visam observar e compreender hábitos e costumes para mergulhar no espírito de uma época e modos de viver.
Naquele ambiente, com aqueles elementos reunidos, isso virou um bate papo sobre a riqueza de personagens e situações apresentadas nas grandes cidades. Gata, uma bruxa maravilhosa das palavras, pontuou que essa fauna urbana trazia, principalmente, profundas reflexões sobre as desigualdades sociais, os mecanismos de controle e o enlouquecimento do ser humano em uma sociedade altamente desumana e sua rotina devastadora. Guero destacou questões como a hipocrisia e a corrupção. Marola pediu uma cerveja para molharmos a guela.
Enquanto os copos ficavam cheios, Guero começou a picar o fumo de rolo na intenção de preparar um cigarro. Dei logo uma golada no meu. Marola ergueu o dele lembrando o brinde que não havia sido feito.
Foi nesse momento que ela chegou.
-Oi, gente!!! Olá!!!
Jogou-se no banco ao lado de Guero que quase deixou cair o cigarro que, tranquilamente, estava acabando de apertar. Ele saiu do transe que estava enquanto preparava o cigarro com todo o cuidado e esmero artesanal. Foi como acordar de repente de um sonho bom e se deparar com o terror da realidade.
-É maconha isso aí? - Perguntou lançando o corpo sobre ele.
-Não. É fumo... Cigarro. - Guero respondeu inclinando o corpo na direção oposta, tentando fugir da investida.
Ela ajeitou o corpo, ficando na posição reta.
-Ah... Cigarro... ??? Queria um baseado. Fumar um cigarro de maconha.
Nunca fui bom nessa coisa de ficar adivinhando a idade dos outros, mas ela devia ter por volta dos cinquenta e sete... Alguma coisa assim. Tinha visivelmente bebido mais que devia e embora agisse como se conhecesse todos os presentes, percebia-se claramente no rosto de cada um a interrogação estampada. A troca de olhares deixava clara a questão. "Você conhece?" Ela tinha sua beleza e charme, estava vestida de maneira sensual e havia acabado com todo o clima da mesa. Mas parecia não perceber. Não estava nem aí. Era o centro do universo . Estava sentindo o falso empoderamento que o álcool dá. Esbanjava confiança. Pensei em como ela devia ser sóbria.
-Aperta um baseado... Eu sei que você tem. - Insistiu puxando a camisa de Guero para chamar sua atenção.
-Chegou tarde. Fumamos o que tinha enquanto vinhamos pra cá. - Respondeu contrariado e mudou de lugar.
Tentamos ignorar sua presença e recomeçar a conversa, mas ela não deixava. Sentou-se novamente ao lado de Guero, bem coladinha, e começou a alisar os cabelos dele.
-Não quer ir lá pra casa? Tenho uma piscina, churrasqueira... É bem pertinho.
Ele agradeceu o oferecimento e disse que estávamos trocando uma ideia e que pretendia ficar por ali mesmo.
-Mas o que foi? Não gosta de mulher? Posso cuidar bem de você.
-Já estou muito bem cuidado. - Ele respondeu a nova investida com tranquilidade, apontando Gata com os olhos. Gata deu um sorriso cúmplice para ele. A recém chegada se endireitou no banco, tirando as mãos dos cabelos de Guero, afastando-se e pondo a coluna reta.
-Desculpe. Eu também estou acompanhanada. Meu namorado está jogando sinuca ali na mesa. Queria só conversar.
Guero olhou para a mesa de sinuca onde dois homens jogavam. Gata comentou ao acaso que não tinha problema, tranquilizando a desconhecida, eu continuei como estava, observando toda a situação e Marola segredou em meus ouvidos "Tá vendo. Aqui também aparecem os personagens".
Daí por diante conseguimos espaço para algumas conversas paralelas, mas o clima já havia sido quebrado e, por vezes, ela metia algum comentário aleatório ou insistia no assunto sobre alguém ter um baseado.
Em determinado momento, o tal namorado apareceu na mesa, cumprimentando a todos com intimidade. Eles tinham muito em comum. Com a chegada dele, ninguém mais conseguiu falar. O sujeito contou histórias desde os tempos de criancinha.
-Ele é engenheiro. Vou ficar com ele até colocar a cascata na minha piscina. Depois convido vocês para a inauguração.
Ele não parecia perceber o que ela dizia. Continuava a contar suas histórias sem concluir nenhuma. Emendava um assunto no outro sem concluir nenhum.
De repente estendeu uma linha em cima da mesa e pôs o nariz para funcionar.
-Vocês não se incomodam, né? - Perguntou antes de esticar a segunda.
Eu observava cada detalhe do acontecimento.
Marola inclinou-se e segredou em meus ouvidos:
-Como é bom ser escritor.
Por Fabio da Silva Barbosa
Foz do Iguaçu - PR
26/10/2025

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