Metal Reunion Zine

Blogzine fundado em 2008. Reúne notícias referentes a bandas, artistas, eventos, produções, publicações virtuais e impressas, protestos, filmes/documentários, fotografia, artes plásticas e quadrinhos independentes/underground ligados de alguma forma a vertentes da cultura Rock'n'Roll e Heavy Metal do Brasil e também de alguns países que possuem parceiros de distribuição do selo Music Reunion Prod's and Distro e sua divisão Metal Reunion Records.



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sexta-feira, 25 de julho de 2025

SEUS DEUSES NÃO ME EXCITAM - FRAGMENTOS #4 - A Fórmula

A Fórmula
Por Alexandre Chakal 

Se misturarmos a paixão patológica com o amor inabalável, adicionarmos pitadas de liberdade plena e não colocarmos nenhum dos tantos dogmas religiosos — qual seria o resultado?

Um sentimento novo, capaz de superar a fábula do amor perfeito, ou um impulso promíscuo e avassalador, que despertasse nossos instintos mais primitivos?

Um trisal multigênero, com sabor de sadismo pervertido, talvez explicasse o segundo resultado.
Mas será isso que buscamos?
Será que nossa curta existência se resume a contemplações sonhadoras de perfeição sentimental, ou à cúpula intensa, sem cio definido, com características selvagens e carnais?

Será que o 8 ou 80 é o meio-termo que justifica nossas vidas quando não buscamos os "tantos algos mais" que o capitalismo nos oferece?
Existe uma fórmula para resultados sempre positivos dentro do caos imperfeito que habitamos, onde nos relacionamos e consumimos até o impalpável?

Ou a fórmula seria apenas um artifício para justificarmos nossa condição ainda selvagem — castrada por uma civilidade extraída de ensinamentos religiosos, que continuam moldando até nossa forma de opinar por nós mesmos?

A fórmula é utópica ou aplicável?
Existe algum ingrediente secreto?
Ou será que não se aplica a nós?

Reflita — ou não.

PARA ENTENDER O PRINCIPAL OBJETIVO DA COLUNA, 
LEIA A POSTAGEM #1 AQUI
As informações sobre livros e outros escritos de Alexandre Chakal podem ser  encontrados na página de Instagram  @emcarnevivaecrua

Alguns livros do autor  estão disponíveis AQUI

Fonte Metal Reunion Books & Zines

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terça-feira, 15 de julho de 2025

SEUS DEUSES NÃO ME EXCITAM - FRAGMENTOS #3

Retrato em duas cores.
Por Alexandre Chakal 

Flores na lapela, arco-íris de gêneros tremulando nas redes sociais, empatia por tudo que respira — até pelo fungo no ralo do banheiro. Ukuleles afinados como armas da paz, recitais de poesia onde ninguém julga ninguém, saraus embalados por vozes doces e desafinadas, cultos da prosperidade com glitter e autoconhecimento, e aplausos ritmados para o pôr do sol no Arpoador. Sorriem como se estivessem curtindo a brisa de uma cannabis sagrada no Leblon e repetem, com os olhos semiabertos mirando o horizonte: “o amor venceu”. 
Eis o comunismo soft à brasileira — um desfile de afeto pasteurizado, onde até a revolta parece um publi do Instagram.

Do outro lado do abismo emocional: compram armas e munição como se fossem pacotes de arroz, frequentam clubes de tiro com a seriedade de um culto, treinam jiu-jítsu, musculação e ódio diariamente. Adoram rinha de galos, treinam seus pitbulls pendurados em pneus, frequentam prostibulos que empregam menores de idade. Mas amam a família acima de tudo.  Vão à igreja não por fé, mas para ensaiar o show de pregação neopentecostal - talvez para serem políticos ou pastores. Sonham ser policiais para ter armas, farda, distintivo e poder — e se possível, imunidade moral. Odeiam gays, mas têm amantes trans ativas no sigilo; e mesmo assim, repetem o textinho cristão de que “toda aberração deve morrer”. Se são do Sul, dizem ser “brasileiros alemães” com orgulho eurocêntrico e chamam o fascismo elitista de “postura conservadora”. Arrebentam a namorada no soco, alegando que “defendem direitos iguais” para homens e mulheres, e espalham fake news que destroem reputações com a calma de quem diz estar apenas exercendo sua “liberdade de expressão”.

Se estourar uma guerra entre a esquerda dos ukuleles  fofos e a direita dos fuzis e pitbulls furiosos, quero ver quantas baixas de fascistas se consegue com acordes de ukulele. 

Vai tomar no cu!
Enfia o Ukulele no rabo. 
Entre esquerdas e direitas, 
prefiro martelos e foices.

* Escrito ao som de "Pedrada" na versão da Mukeka di Rato.

PARA ENTENDER O OBJETIVO DA COLUNA, LEIA A POSTAGEM #1 AQUI

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domingo, 4 de maio de 2025

DEPRAVAÇÃO — ZINE ESCATOLÓGICO PARA A MENTE APODRECIDA 1ª edição disponível

Abaixo mensagem divulgada pele editor.

Um vômito escrito, um soco de palavras no crânio moralista.
DEPRAVAÇÃO não é zine, é peste em papel, 12 páginas em PDF — para imprimir, revender, rasgar, esfregar na cara do mundo civilizado.
Sem igreja. Sem deus.

É um manifesto de ódio lúcido, filosofia de esgoto, violência textual contra toda forma de norma imposta.
Moral, fé, política, identidade, desejo — nada escapa da mutilação.

Não queremos leitores, queremos cúmplices.

PDF — 12 páginas
Você pode imprimir, vender, xerocar, fazer o que quiser.
Mas espalhe a maldição.

DEPRAVAÇÃO — onde a mente liberta é um corpo sujo em festa.

Pedidos e informações:
Henrique -  98 8155-6225

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Navalha na Carne - Edição 46 - Gosto de drogas, mas odeio viciados.

Você, caro leitor, já presenciou um alcoólatra espancando sua esposa e filhos sob efeito do álcool? Já soube ou viu um neto viciado em cocaína vendendo os móveis e eletrodomésticos da avó frágil para conseguir recursos e comprar o entorpecente que lhe causa dependência física, química e psicológica? Já soube de grupos de jovens que se envolveram em acidentes fatais de trânsito e tiraram suas próprias vidas e de terceiros por estarem dirigindo sob efeito de drogas? Assistiu recentemente alguma notícia veiculada nas mídias sobre um motorista de um Porsche, empresário, pertencente à classe alta paulistana que matou um motorista de aplicativo por estar dirigindo seu possante carro a 156 km/h em uma avenida onde a velocidade máxima permitida era 50 km/h?

Antes de ter que ler comentários cheios de mi-mi-mi, não estou falando de usuários de drogas, pois também me considero um deles. O papo aqui é sobre viciados em drogas. Apesar da sociedade cristã, que se coloca como conservadora e tradicionalista, não diferenciar um do outro, existe uma diferença gritante entre usuário e viciado sim.

Mas as respostas para essas perguntas do primeiro parágrafo já justificariam o título do "Navalha" de hoje, que pode até parecer arrogante e ter um ar de superioridade incômodo para você, mas mesmo sabendo que drogas, em sua maioria, são nocivas, sei também que existem as ondas boas e efeitos relaxantes, prazerosos e que algumas têm uso medicinal inclusive. Sabemos também que o problema social das drogas tem muitos tentáculos e ramificações que vão além do uso, proibição, tráfico, guerra atrelada ao combate às substâncias entorpecentes ilícitas. Mas digamos que fossem apenas drogas? Afirmar que gosta de drogas, mas odeia viciados, é uma crítica a questões comportamentais que observei, e acredito que você também sacou, pois quando o indivíduo se torna um viciado, seja qual for a substância, ele se transforma em um escravo da dependência e sofre alterações com impactos sociais devastadores, mais devastadores que os prejuízos causados ao organismo pelo uso de drogas. Moral, verdade e caráter estão no pacote. Mas viciados não se importam com caráter, verdade ou moral, né?

Viciados, em sua grande maioria, revelam distúrbios sérios de caráter. Esquecem as coisas e usam as drogas como desculpa esfarrapada para suas falhas morais imperdoáveis. Cometem atos abomináveis, prejudicando terceiros de forma absurda.

E quando são flagrados em suas trapaças, recorrem ao velho truque de culpar a "doença", derramando lágrimas de falsa penitência. Especialistas podem até tentar justificar suas atitudes, mas na vida real, já me deparei com uma infinidade de viciados, seja em álcool, remédios controlados, cocaína ou outras drogas, que mentem como se respirassem, enganam com um sorriso no rosto e se fazem de vítimas quando confrontados por seus atos.

Não importa onde estejam, qual é a cultura local que os rege, todos eles revelam a mesma falta de caráter que os consome por dentro. A demência que clamam é apenas uma cortina de fumaça para encobrir a verdadeira essência de suas personalidades corrompidas.

Portanto, antes de proferir julgamentos e definições hipócritas, olhe para a realidade nua e crua: os viciados não merecem compaixão por suas escolhas, mas merecem sim ajuda profissional e tratativas que os ajudem a enfrentar as consequências de seus atos e buscar verdadeira redenção, sabendo dividir o que é usar drogas de forma consciente e responsável e o que é virar um estorvo social e familiar por escolha própria, mas obrigando de forma direta e indireta que o seu grupo social seja forçado a ser a sua muleta, seu médico, seu advogado, anjo da guarda e assistente social. Sem sentir nenhuma brisa.

Aí voltamos ao início. Gosto de drogas, mas viciados? Tô fora.

Aí algum usuário de drogas diboísta que está lendo vai questionar. "Cadê a empatia?" Foda-se! Viciado só tem empatia com quem divide drogas com ele, e nem sabe ao certo o significado da palavra.

Por Alexandre Chakal

sábado, 7 de setembro de 2024

Arquivos Explícitos- Notas Subterrâneas #5 -.

Enquanto ele se se preocupava com os homens de negócios que ganhavam dinheiro através do X, o outro morria de fome e frio em seu quartinho insalubre. Varios insetos proliferavam em sua carcaça putrida. Das feridas escorriam a secreção viscosa que lubrificava a dor. As moscas varejeiras não existiam mais. Aquelas cabeludas já tinham comido todas. Os carrapatos jantaram as pulgas inchadas com o sangue purulento. Era a época em que ninguém sabia mais nada. Doenças ocupando cada espaço deste presente grandioso, véspera de um futuro promissor. O ápice da humanidade em decadência, onde a burrice generalizada estava entre as piores pestes.

Por Fábio da Silva Barbosa 
Setembro / 2024

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Arquivos Explícitos- Notas Subterrâneas #2


Quantos casos isolados são necessários para se tornar modus operandi?


“PMs acusados do homicídio de Claudia Ferreira, arrastada por viatura, são absolvidos dez anos após o caso - Na ocasião, policiais chegaram a ser alertados por pedestres sobre a situação, mas não pararam o veículo”

“Amarildo Dias de Souza (Rio de Janeiro, 1965/1966 - Rio de Janeiro, 2013) foi um ajudante de pedreiro brasileiro que ficou conhecido nacionalmente por conta de seu desaparecimento, desde o dia 14 de julho de 2013, após ter sido detido por policiais militares e conduzido da porta de sua casa, na Favela da Rocinha, em direção a sede da Unidade de Polícia Pacificadora do bairro.”

“Um homem que segurava uma furadeira foi confundido com um traficante armado e morto com um tiro de fuzil por um cabo do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar do Rio de Janeiro. O fiscal de supermercados Hélio Ribeiro, de 46 anos, instalava um toldo no terraço de casa durante uma incursão policial em um dos acessos ao Morro do Andaraí, na zona norte da capital fluminense.”

“Nas imagens, quatro rapazes estão encostados na parede com as mãos para trás. Junto com eles está um policial, com uma espécie de bastão na mão. Ele bate com o objeto nas pernas e na sola do pé de um dos jovens. O menino tenta se desvencilhar, mas o soldado o manda não tirar o pé do lugar.”

“A caminhada que tinha começado no dia 10 de abril foi parada com sangue em um ataque da Polícia Militar que ficou mundialmente conhecido como o Massacre de Eldorado do Carajás. Um total de 155 policiais militares estiveram envolvidos na operação que deixou 21 camponeses mortos, 19 no local do ataque, e outros dois que faleceram no hospital.”


*Trechos de notícias surrupiados livremente na internet para compor este mosaico bizarro.
Furto de matérias cometido por Fabio da Silva Barbosa.
Mais um que pode virar presunto na fantástica fábrica de casos isolados.

Até a próxima.

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Navalha na Carne - Edição 33 - A cultura do cancelamento? Talvez um texto cancelável. Mas e daí?

 Escrevi esse texto em algum momento de 2023. Achei-o muito grande, repetitivo e desagradável. Mas eu notei que o que posto aqui no Navalha na Carne não tem muitas leituras, ninguém liga, e lembrei que vivemos no mundo das mensagens curtas, instantâneas e rasas. Textos grandes não interessam para a maioria. Então, decidi postar. Apesar de minhas motivações e percepções na ocasião que escrevi terem mudado, o texto continua atual em abril de 2024. Vamos lá.


E a cultura do cancelamento? Talvez um texto cancelável. Mas e daí?

Jogo vergonhoso de poder, atrelado à falta de ética, ausência de caráter e péssima educação básica. "Ainnn. Olha ele!?"

Relaxa, leitor! Além de você que está lendo, incluo a mim mesmo na crítica que vem nas próximas "linhas". Incluo também o político eleito democraticamente que, ao invés de estar trabalhando para seu eleitor, está fazendo dancinha no TicTock ou usando o plenário da casa para exaltar coisas relacionadas ao nazismo. Sim! Nazismo! No Brasil! Sim! Isso aí! Hitler, Holocausto, milhões de judeus massacrados e um político brasileiro, que não deixa de votar o aumento do seu próprio salário, está falando disso em plano 2023. Incluo também, claro e obviamente, o policial. Sim! Aquele que deveria estar protegendo e servindo eu e você de sermos vítimas de crimes, às vezes cometidos por policiais, mas esse, deve estar contando o lucro do faturamento daquele puteiro, lotado de moças menores de idade, que ele administra com mãos de ferro em suas folgas, ou quem sabe, o coitado está ocupado, assassinando alguém de pele preta que pode ser e é rotulado como criminoso. Algo natural e devidamente aceito por qualquer elemento dessa nossa sociedade que exalta a branquitude e valores vindos dos tempos do feudo. Você tem dúvidas, que devido à nossa cor de pele, podemos ser cancelados? Seja preto(a) no Brasil e descubra a cultura do cancelamento silenciosa e covarde. Sem nenhum textão ou prints no feed. Ah! incluo também aquela digital influencer, que fica linda quando posta aqueles vídeos de biquíni, que causam inveja a muitas que são apenas digitais e também fazem os marmanjos babarem como cães olhando frangueira de padaria. Não menos importante, incluo os pastores evangélicos midiáticos, que pedem dinheiro para os seus fiéis, alegando que as coisas estão muito difíceis e ao mesmo tempo, orientam esses mesmos fiéis a orarem e terem fé quando precisarem de dinheiro para suas dificuldades, incluo os apresentadores de programas de TV, os jornalistas, juízes, advogados parciais e uma parcela significativa de nossa tão ilibada sociedade, que atrás de uma tela, são tudo de melhor e cancelam sem nenhum remorso. Aquelas pessoas, que alegam ser verdadeiras mas não se importam com fontes, com a realidade dos fatos, consomem e criam fake news, destruindo reputações, famílias, carreiras e vidas. Muitas vidas.

Essa primeira parte inclusiva, digamos assim, sou eu apenas buscando evitar atitudes truculentas e recheadas de malcaratismo, que sei bem que você que está lendo, eu e os demais citados, somos bem capazes de cometer, ainda mais se estivermos na comodidade de nosso doce lar, digitando freneticamente na tela de nosso smartphone, após nossa vaidade e ego serem atingidas por críticas. Somos pessoas tão boas. Não merecemos isso. Já os outros, cancelamento neles né?

Mas apesar do texto até aqui eu sou favorável à cultura do cancelamento sim. Sou mesmo. Mas em partes né? Em partes porque? Porque acredito, que, nem eu e nem você, temos de fato esse poder! Somos na verdade, parte importante do problema. Problema que existe desde antes da internet e todos os avanços tecnológicos importantes ocorridos nas últimas duas décadas, mas que por aqui, são usados de forma rudimentar, maldosa, individualista, covarde, irresponsável e até mal caráter. Somos nós os errados também. Não esqueça desse ponto importante do texto. Você e eu somos responsáveis. Somos canceláveis e deveríamos analisar se de fato, somos civilizados ou fingimos civilidade para sermos promovidos no trabalho, transarmos com alguém que desejamos sexualmente, termos vantagens financeiras, sociais, familiares e tudo mais que a tal civilidade, mesmo forjada na medida desejada pelos outros, nos traz.

Civilidade. Inteligência. Ética. Caráter... Nossa gente! Quantas palavras bonitas e boas de usar, né? Mas e aí? Você usa alguma delas quando aponta seu indicador para a tela de seu aparelho celular, que ainda tem uma dúzia de prestações por pagar?

O que faz você acreditar que é alguém capaz de julgar, condenar e sentenciar outro alguém ao cancelamento e assim ocasionar todos os prejuízos que vêm no pacote? O número de seguidores que você colecionou nas suas redes? O tal engajamento de suas postagens de alerta? A sensacional chance do algoritmo viralizar sua atitude e assim você lucrar com a promoção do cancelamento? O pseudo poder que acreditas ter devido a sua condição social, cor da pele, beleza estética, formação acadêmica? Ou quem sabe, aquela sua vontade infantil de ser um super herói, tipo um dos vingadores. Com seu celular em mãos, estás pronto para cancelar todos os vilões ou quem você definir que é ou será o vilão, na sua brincadeira chamada vida e assim salvar a raça humana, sendo aplaudido de pé por toda internet?

Mas isso me faz pensar aqui em alguns pontos que continuam em uma crescente no Brasil.

Vivemos em um país que a educação básica é uma problemática deixada devidamente para quinto plano pelo estado, governos e inclusive profissionais de educação, que são impactados diretamente pelo sucateamento promovido por quem deveria cumprir esse ponto básico previsto na constituição federal.

Onde também, nos mesmos, temos que declarar em documentos oficiais, coisas como.. com qual cor e gênero nos identificamos, qual é nossa religião e dependendo da circunstância, qual é o time de futebol que nos declaramos torcedores.

Até quem é bem ignorante, sabe que orientação religiosa é algo relacionado à fé do indivíduo. Quando eu falo indivíduo, você consegue notar uma similaridade com a palavra individual? Então porra!? Dar satisfações sobre suas escolhas religiosas deveria ser algo condenável, cancelável e considerado falta de ética. Olha eu de novo falando ética. Mas o que é ética mesmo? Milhões nem sabem como se escreve certinha essa palavra. O significado, acredito eu, deve ser algo para horas de aulas.

Mas curiosamente, eu, você e muitas pessoas que vão ler ou não isso aqui, sabemos digitar textos bem contundentes, repletos de inverdades, de covardia. Sabemos ser rudes, mal educados e sabemos fazer certinho algo com objetivo de cancelar alguém em nossas redes sociais. Será que somos pessoas ruins ou apenas uma manada de rebeldes que precisam se expressar cada vez mais em um mundo repleto de indiferença ao próximo?

E tem mais... A linguística? Segundo inúmeros especialistas, formados nas fileiras do Facebook e outras redes sociais em alta, ou quem sabe, antissociais, é algo mutável que pode naturalmente substituir o vocabulário de um idioma pátrio, para segundo eles (os especialistas), sermos mais inclusivos, termos mais empatia e também alcançarmos a equidade tão desejada por todos ou todes.

Sei lá! Em um país que vive uma catástrofe educacional a cada governo que passa por Brasília, onde temos uma taxa de natalidade tão alta quanto a taxa de mortalidade, onde em pleno 2023 temos milhares de analfabetos incapazes de assinar o próprio nome, analfabetos funcionais e multidões de parasitas virtuais, curiosamente atuando em frentes teoricamente importantes para o desenvolvimento da nação. Onde as pessoas passam fome, moram nas ruas, comem ossos, lixo, restos e morrem de doenças que na teoria foram erradicadas na idade média, mas estão voltando devido ao negacionismo por vacinas, divulgado adivinhe onde? Ah! Você sabe? Antivax é um neologismo criado para definir esse grupo de canceladores de vacinas.

Um país, onde meninos e meninas, que deveriam estar brincando na segurança de um lar sem pais e tios abusadores, mas estão vendendo seus corpinhos nas estradas por um punhado de moedas ou em troca de um prato com comida azeda? Sem falar em grupos específicos que promovem teorias como da terra plana, e cancelam todos que acreditam em uma esfera girando no espaço, que cancelam obesos, autistas, portadores de necessidades especiais, idosos... Cadê a cultura do cancelamento para questões óbvias que estão invadindo nossos olhos através das redes sociais e telejornais?

Cultura do cancelamento aplicada de forma justa para violência contra a mulher, estupro, pedofilia, racismo, xenofobia, homofobia, intolerâncias relacionadas a religiões, não deixa de ser importante, e apesar de minhas críticas até aqui, repito, sou favorável. Mas sabe porque? Por que eu, talvez igual a você, me sinta abandonado pelo estado, abandonado pelo judiciário. Quando leio ou assisto reportagens que mostram ocorrências condenáveis e canceláveis, eu também sinto vontade de fazer alguma coisa, de escrever sobre, de criticar alguém e até de fazer justiça com as próprias mãos, visto que isso me deixa ansioso, depressivo, triste, inseguro e preocupado com parentes, amigos e pessoas que amo e quero bem.

Eu acredito, que a cultura do cancelamento tem um lado justo se olharmos pelo prisma do abandono e indiferença que todos nós sofremos, daqueles que deveriam criar leis mais severas, aplicar essas de forma justa e unificada, sem beneficiar os mais favorecidos e despedaçar aqueles que não têm como se defender, devido à inércia de quem devidamente eleito ou empossado, deveria trabalhar para evitar bestialidades tão normais em nosso cotidiano sofrido e muitas vezes desumano.

Porra! Vocês ou melhor, nós, elegemos pessoas que mal sabem ler ou escrever para legislar as leis que vão reger nossa sociedade. Somos fãs de assassinos confessos que viram até youtubers e faturam muita grana contando histórias como chacinas de menores, efetuadas na época que a internet era apenas um sonho. Elegemos mitos por sua truculência, jeito escroto de tratar as pessoas e por ser "sem filtro", achamos isso o máximo, e afirmamos, "lacrou".

Mais uma vez, fica claro que a cultura do cancelamento é uma forma covarde de nos defendermos de covardias que o estado, as igrejas, os líderes, os influencers e até mesmo os deuses não conseguiram até agora nos defender. Pensemos nisso, pois deixei de fazer analogias bem mais importantes que as citadas no texto. 

Se discordarem, me cancelem.

Por Alexandre Chakal 

domingo, 24 de março de 2024

Navalha na Carne - Edição 24 - Expressividade desesperada ou comprada? Visibilidade forçada? Por que ainda chamam de Underground?

Aproveitando a nova edição para apresentar as logomarcas que vão se alternar nas próximas postagens.

No cerne do underground, um solo fértil de expressão autêntica e liberdade criativa, o terreno é minado por uma ironia amarga: a corrupção de seus próprios valores pelos que o habitam. Aqui, nos subterrâneos, onde a arte é cultivada como uma forma de resistência, surge uma dicotomia dolorosa. De um lado, o mainstream, um espetáculo de produtos culturais embalados para consumo, onde a expressão é moldada para agradar massas e encher os bolsos daqueles que detêm os cordões do poder. Do outro, o underground, um refúgio para os descontentes, onde o "faça você mesmo" é o lema e a arte é uma busca sincera pela verdade e pela beleza, longe das garras do lucro e da fama fácil.

Mas mesmo aqui, no tal underground, nas sombras da contracultura, encontramos a sombra sinistra do "Underground": uma expressividade forçada, uma visibilidade comprada. Onde a arte é cooptada pelo mercado, onde o brilho dos holofotes que valorizam a arte e suas mensagens, muitas vezes importantes para questões sociais ou simplesmente de preservação de valores específicos, é trocado por compromissos, concessões e mais concessões que corrompem valores e referências para outras gerações que montam bandas ou outras manifestações culturais de forma honesta e com intenção de usar a arte como uma arma contra um sistema capitalista, cruel e vergonhoso, onde todas "as peças" têm que trazer algum lucro ou estar em evidência nas grandes mídias.

Onde a integridade é sacrificada no altar da popularidade, e a voz do artista é abafada pelo clamor das marcas e dos influenciadores. É uma distorção dos valores que deveriam ser sagrados no underground: a liberdade, a autenticidade, a resistência. Mas que por aqui, no Brasil, são facilmente trocados por likes, entrevistas em uma imprensa elitista e são acompanhados por produtores e outros que visam lucrar com aqueles que se destacam e se vendem na mesma proporção.

E assim, o que deveria ser um movimento de libertação torna-se mais uma prisão, onde as regras são ditadas por aqueles que têm o poder e o dinheiro. Onde os sonhos são moldados pela ilusão do sucesso fácil, contanto que seja pago, e a famosa promessa de se tornar parte reconhecido e se tornar aspirante ao mainstream. É nitidamente uma traição aos ideais que deram origem ao underground, uma traição perpetrada por aqueles que afirmam ser seus defensores mais fervorosos. Algo já normal por aqui.
Regras tipo: a banda para ser banda, tem que ter sua discografia lançada em formato vinil, tem que fazer pelo menos uma Tour por ano, incluindo turnês internacionais, sul-americanas e até asiáticas, tem que ter pelo menos 20k de seguidores do insta, possuir um vídeo clipe profissional e esse vídeo clipe tem que figurar nas grandes mídias, tem que possuir presskit e uma assessoria de imprensa, tem que buscar de toda forma estar entre os top five das plataformas de streaming, tem que tocar nos grandes festivais voltados ao Rock, mesmo que sejam festivais de música pop, o que importa é aparecer para o maior número de contas, pessoas, consumidores, sem se importar se sua mensagem artística está atingindo o seu pseudo público alvo ou não. São regras, rotuladas como carreira que buscam números para alcançar mais números. No Brasil, eu poderia citar nomes de artistas e bandas que se comunicam de forma underground com o público que habita o underground, mas apenas para ostentar que se tornaram do mainstream. Mas vivemos em tempos de cancelamentos virtuais covardes e manadas de gado seguindo seus donos nas redes. Citar nomes pode ocasionar uma enxurrada de ataques e uma escalada para crimes virtuais das esferas cíveis e penais. Então fica o texto apenas para pensarmos sobre. Apesar da coluna Navalha na Carne estar cagando quilos para críticas, essa massa de rebeldes virtuais desocupados, com teclados frenéticos , fake news já enraizadas em seu DNA e discursos de ódio covardes e inconsequentes, é bem chata. Então sem nomes, é melhor para todos.

Mas para não deixar o pessimismo e decepção em alta, diante dessa traição, há uma luz de esperança. Pois enquanto houver artistas e visionários dispostos a resistir, enquanto houver aqueles que se recusam a comprometer sua integridade em troca de fama passageira, o verdadeiro espírito do underground viverá. E é nesse espírito que reside a verdadeira beleza da arte, uma beleza que não pode ser comprada nem vendida, uma beleza que transcende as fronteiras do tempo e do espaço, pois é isso que é arte. É essa beleza que devemos proteger e preservar, mesmo quando o mundo ao nosso redor parece estar desmoronando, virando um circo de entretenimento barato ou criando um sistema de trocas, onde os valores são trocados por likes e aprovação social inútil. Pois é essa beleza que nos lembra quem somos e o que realmente valorizamos, mesmo quando tudo mais parece estar perdido, fudido e corrompido.

Alexandre Chakal é carioca, pai, publicitário, jornalista independente, designer, musicista, escritor, poeta, locutor freelancer, zineiro, editor do blog Metal Reunion Zine à mais de 15 anos.  Um eterno inconformado com o cenário social e as péssimas gestões políticas no país mais rico da America Latina.

sábado, 23 de março de 2024

Navalha na Carne - Edição Extra - A proposta de Baudelaire. Embriagai-vos!

 

As edições extra do Navalha na Carne, são coisas aleatórias que surgem do nada na minha cabeça, quando vejo, já tem um monte de linhas. 
Estão esse texto abaixo, é algo que normalmente eu teria deletado, mas decidi postar.

Deveis andar constantemente embriagados. Tudo consiste nisso: eis a única questão. Para não sentirdes o fardo horrível do tempo, que vos quebra as espáduas, vergando-vos para o chão, é preciso que vos embriagueis sem descanso. Mas, com quê? Com vinho, poesia, virtude. Como quiserdes. Mas, embriagai-vos. E se, alguma vez, nos degraus de um palácio, na verde relva de uma vala, na solidão morna de vosso quarto, despertardes com a embriaguez diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são. E o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio vos responderão: "É a hora de vos embriagardes! Para não serdes escravos martirizados do tempo, embriagai-vos! Embriagai-vos sem cessar! Com vinho, poesia, virtude! Como quiserdes!"

O poema "Embriagai-vos!" de Charles Baudelaire é um convite à embriaguez, não apenas física, mas também espiritual, através da poesia e da virtude. No entanto, em uma sociedade onde a cultura da leitura é negligenciada e a poesia é vista como algo distante do cotidiano, o brasileiro médio encontra-se, muitas vezes, embriagado apenas pela monotonia e pelas preocupações cotidianas que o escravizam.
A falta de interesse pela leitura e pelo cultivo da arte poética reflete um descaso pela reflexão e pela busca por uma vida mais plena de significado, ou quem sabe, menos manipulada por quem possui as "redeas" do sistema. 
Como o poeta nos lembra, é primordial nos embriagarmos com as diversas formas de arte para escaparmos da tirania do tempo e encontrarmos uma libertação espiritual e mental. Partindo do princípio que espírito é a nossa mente, e a realidade que vivenciamos é criada por essa mente.

Mais importante do que as religiões e a fé em deuses implacáveis, a arte, em suas várias formas, tem o poder de salvar vidas e promover a evolução social das civilizações. Desde os primórdios da humanidade, a expressão artística tem sido uma ferramenta para a transformação e a união de comunidades. Talvez, no Brasil, onde o futuro muitas vezes parece incerto, seja a arte a verdadeira salvação. Se nos embriagarmos com a beleza da poesia, da música, da pintura e de todas as manifestações artísticas, mesmo aquelas que não são bonitas, como as artes contraculturais, poderemos vislumbrar um futuro onde a criatividade e a sensibilidade serão os alicerces de uma sociedade mais justa e compassiva.
Foto de Baudelaire
Texto de Alexandre Chakal 


terça-feira, 1 de agosto de 2023

DEATHTHRASHERS "ENSAIOS SOBRE O APOCALIPSE" - 4Way Split Retaliador, GomorraA, Total Desastre e Nordeath

 
A De Profundis Productions segue com suas atividades no extremo cenário nacional. E é com extrema honra, que anunciarmos nossa inclusão em uma aliança extrema com os selos: Sangue Underground Records, Impaled Records, Alcoolismo & Luxúria Distro Bigorna Records, Ataude Produções, Cossaco Records e TbonTbrec Records para o lançamento do Split DEATHTHRASHERS "ENSAIOS SOBRE O APOCALIPSE" com as bandas: Retaliador, GomorraA, Total Desastre e Nordeath. 

Artefato forjado no mais puro ódio e repugnância contendo faixas inéditas de cada banda, sendo 8 faixas de sons caóticos a despeito da tragédia ocorrida na Pandemia de Covid-19 e também da opressão imposta por um governo podre e totalitarista.

Previsão de lançamento agosto/2023. 

https://www.instagram.com/p/CulPRPeAGgt/?igshid=YmM0MjE2YWMzOA==

Fonte

GomorraA

terça-feira, 27 de junho de 2023

ARQUIVOS EXPLÍCITOS - Contos e crônicas da ópera rock do terror cotidiano - Segunda Temporada 2023 - #7

 

Quando ele leu a coluna

Por Fabio da Silva Barbosa

Daí ele tomou um gole na branquinha e disparou:

- Mas por que o subtítulo é “Contos e crônicas da ópera rock do terror cotidiano” se, por vezes, são relatos e crônicas até tranquilas?

Sabia que em muitos momentos ele estava querendo provocar, mas um bom companheiro de mesa, um irmão de copo, reconhece o que o outro está querendo dizer. Naquele momento estava apenas com um questionamento autêntico.

- Tudo depende de quem está lendo. O que é aterrorizante para uns, soa como flores para outros.

- Mas quem está escrevendo é o mesmo. Então você deveria...

- Não deveria nada. Não tenho dever com nada, nem com ninguém.

- Mas então não faz sentido...

- Exatamente. Agora você está chegando perto. Nada faz sentido e não vai ser minha coluna que vai se prestar a salvar o mundo. Muito pelo contrário. Que sirva como prece ao próximo meteoro que estiver na direção da Terra para que dessa vez acerte em cheio. Cansado dessa conversinha de sempre passou perto. Ficamos em uma expectativa danada pra quê?

- Mas você não me deixa acabar de falar.

- Não precisa. Já sei o que você vai dizer e não me interessa. Mas estou sendo educado e não te deixando sem respostas.

Então ele discretamente tirou a sonda e colocou a tripa de borracha na garrafa que estava estrategicamente sob a mesa. Ele tinha prática em acertar a boca da garrafa e deixar a fina mangueirinha escorregar gargalo a baixo. Logo começava a brotar o líquido. Ele fazia isso tudo olhando para outro lado, ou conversando, como se nada estivesse acontecendo.

- Achei esse final perfeito.

- Que final?

- Você mijando na garrafa de cerveja com essa cara de paisagem.

- ...

- Vai ser a próxima coluna.

- O quê?

- Esse nosso papo.

- Pois é... É isso que eu digo.

- Pois é. É isso que digo também, só que de outro jeito.

- Então bota o que você quiser nessa porra.

- Pode deixar. Farei isso. Não se preocupe.  


Daqui a 15 dias, nos vemos novamente. Até lá!

sábado, 14 de maio de 2022

ARQUIVOS EXPLÍCITOS #7 - Contos e crônicas da opera Rock do terror cotidiano.

Conversa séria com Deus - Parte 2

Por Alexandre Chakal e Fabio da Silva Barbosa 

E minha irmã? Vai pra igreja todo dia rezar pra você. Coloca sua melhor roupa, lê a bíblia e agradece exatamente a você tudo o que ela vai comer. Chegou ontem dizendo que tá esperando um bebê. O pastor disse que o pai é você. Como assim, Deus? Você não deveria colocar um bebê na minha irmã. Não temos o que comer. A casa é pequena e ela estava estudando pra tentar melhorar as coisas. Por que você entrou no corpo do pastor pra fazer um bebê na minha irmã? O pastor disse que o pai é você. E agora? Como vai ser? Mais uma boca para comer. O senhor nem paga pensão. Nunca ouvi dizer que Deus pagou pensão. É ela ainda que tem de pagar. E sou muito novo pra ser tio. Esse bebê vai pegar pra ele o resto de carinho. O restinho que quase não tem mais. Não serei mais a criança, o pequeno. Serei o tio do bebê. Serei teu cunhado. Nunca tinha ouvido falar em cunhado de Deus. Mas deve ter tido. Maria tinha irmãos? Devia ter. E coitado do José. Ainda tinha de trabalhar pra sustentar seu filho.

E tem mais!

Tenho um primo que agora é prima. Era Oswaldo, mas trocou o nome pra Shakira. Ele se veste de mulher e diz que é dançarina. Trabalha de noite na rua. Daqui da janela eu posso ver ele(a) lá na esquina. Não vejo ele(a) dançar, apenas se debruça na janela dos carros que param pedindo  informações e dicas. Porque o pai dizia que o senhor ia castigar? O senhor não ama a todos? Por que o pai dizia que era errado, se o senhor mesmo nos deu o direito de decidir por nós? Ou é uma ilusão esse tal livre arbítrio? Mais uma mentira, como Papai Noel e Coelhinho da Páscoa... Por que nos ensinam tantas mentiras? Só pra depois dizer que nada é verdade? Não consigo entender. Por que tanta gente não gosta da Shakira, xinga quando ela passa...?

Ela fala que Deus é seus amigo e sempre está junto nas madrugadas frias, mas se você tá sempre junto do Oswaldo, ou Shakira, por que ela chegou ontem a noite toda machucada?  Nem foi para a esquina hoje? Perguntei a ela o que Deus tinha feito pra defender-la dessa maldade. Ela me respondeu que Deus tava lá, mas não entende porque não foi ajudar. Mesmo sendo maior, tem coisas que ela também não entende ainda. Ela acha que você, Deus, pode tá chateado com ela, pois o pastor, que será pai do meu sobrinho, disse a que aquele espancamento era um recado de Deus. Como assim, Deus? Por que bater na Shakira até quase matar? Não existe outra maneira de mandar um recado? Nunca ouviu falar de carta, email...? Pensei que o senhor sabia de tudo.

Um dia sentei na mesa pra comer e mamãe tava triste, chorando. Mais uma surra do papai. Ela não conseguia segurar as lágrimas. Não tinha pão, café, bolo... nada para comer. Mamãe pedia perdão e dizia que Deus ia prover. O tempo passou e nada do senhor prover, fazer uma Graça que seja.

Fazem três dias que não tem nada pra comer. Só água e farinha. Ela continua dizendo que o senhor irá prover. E agora, Deus? Tô com muita fome. Minha barriguinha dói e não sei o jeito pra fazer parar de doer.

Falta pouco para nascer o bebê da minha irmã. Será você vai aparecer? Afinal, todo pai quer ver seu filho nascer. Certo, Deus? Você vem? Se vier, será que pode trazer carne, leite, biscoitos e fraldas pro nenê?

'Conversa séria com Deus' é um conto que integra o livro "Seus Deuses não me excitam" de Alexandre Chakal, com previsão de lançamento para o segundo semestre de 2022 via Editora Merda na Mão.

Continua em 29/05/2022

Até lá!

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Onslaught: ingleses confirmam tour no Brasil com NervoChaos e Uganga

 A lendária banda inglesa Onslaught, retorna ao Brasil em uma tour de comemoração de seus 40 anos. Ao lado dos ingleses estarão as bandas NervoChaos e Uganga (além de outras bandas escolhidas para cada região).

As datas da tour, por enquanto são:
06.07 – Rio de Janeiro/RJ @Areninha Carioca Hermeto Pascoal
07.07 – TBA
08.07 – Bauru/SP @jackmusicpub
09.07 – São Paulo/SP @Jaiclub *sem NervoChaos
10.07 – Limeira/SP @COI Fest


Formado em 1982 em Bristol/Inglaterra, o Onslaught começou fazendo Hardcore/Punk, e logo enveredou pelos caminhos do Thrash Metal. Sua discografia contém clássicos absolutos do Metal, como “Power From Hell” (1985), “The Force” (1986) e “In Search Of Sanity” (1989) – esse com o vocalista do Grim Reaper, Steve Grimmett. Mesmo os álbuns posteriores são considerados acima da média, como “Killing Peace” (2007), “Sounds Of Violence” (2011), “VI” (2013) e o mais recente, e bastante elogiado, “Generation Antichrist” (2020).

A formação do Onslaught conta com Nige Rockett (guitarra), David Garnett (vocal), Wayne Dorman (guitarra), Jeff Williams (baixo) e James Perry (bateria).

Assista o vídeo oficial de “Bow Down To The Clowns”:

O NervoChaos segue nas comemorações de seus 25 anos, divulgando seu novo álbum “All Colors of Darkness”, lançado neste ano, além do álbum de regravações, “Dug Up… Diabolical Reincarnations”, lançado em novembro do ano passado.

Já o Uganga, se prepara para lançar o sucessor de “Servus”, seu quinto álbum, de 2019. O vocalista Manu Joker integrou o Sarcófago no final dos anos 80, tendo gravado a bateria do clássico EP “Rotting”(1989) – hoje em dia ele lidera o Manu Joker & The Röttens.

Fonte

http://radioexmera.blogspot.com/2022/04/onslaught-ingleses-confirmam-tour-no.html


terça-feira, 15 de março de 2022

ARQUIVOS EXPLÍCITOS #3 - Contos e crônicas da opera Rock do terror cotidiano.

 
Seguindo nossa saga quinzenal, aqui está o texto #3 da coluna  ARQUIVOS EXPLÍCITOS

No banco da praça

Por Fabio da Silva Barbosa

19/02/2022

08h:56min

 

Só depois de muito tempo entendi pra que servem os bancos de praça (ou, ao menos, pra quem servem). Na verdade, existem figuras variadas que por motivos diversos sentam nestes bancos. Ele, por exemplo, é uma figura constante por ali. Algumas vezes acomodava-se em um lado diferente da praça, mas eram sempre os mesmos bancos.

Chegou, como sempre, puxou um cigarro, colocou na boca e acendeu. Tragou fundo enquanto ouvia o canto dos pássaros. Depois de algum tempo, percebeu que entre um determinado número de cantos, podia ser ouvido um grito. Não era grito de dor ou prazer. Parecia um tipo incompreensível de comunicação. Vinham de trás do bambuzal.

Ficou atento.

De repente um cara saiu correndo de trás do bambuzal com uma garrafa na mão. Corria e discutia, olhando pra onde não havia nem alma penada. A distância não permitia distinguir o que preenchia a garrafa ou o quanto estava cheia.

Será que era de beber ou de cheirar? Devia ser de cheirar. Não era possível que fosse bebida. Ou então era coisa forte. Bateu até uma curiosidadezinha. Daquelas... Tipo coceira no furico. Coisa boba que dá e passa. Às vezes sim e as vezes não.

Atravessou a avenida entre os carros e sumiu do campo de visão. Ouvia apenas aquela voz berrando com o nada. Frases incompreensíveis, enigmáticas. A travessia na avenida parece ter durado um ano. Ele parava e pulava na frente dos carros que vinham em alta velocidade. A sinfonia dos pássaros agora dividia o espaço com outra sinfonia. Buzinas e gritos, vozes exaltadas... Alterações preenchendo o ar. Um problema saltitante criando distúrbios àquela hora da manhã.

De repente ele volta a toda. Traçou uma linha reta e atravessou com velocidade total. Parou um pedestre e começou a discutir. Dava para ver que o pedestre não entendia uma palavra do que ele dizia e tentava compreender a situação. Por fim ele forçou um aperto de mão, que foi retribuído com um não saber o que fazer.

Voltou correndo e mergulhou atrás do bambuzal.

Não sei como aquela aventura acabou. Pra mim terminou ali. Levantei resolvido e fui embora dali antes que algum daqueles pássaros cagasse em cima de mim. O corretor ortográfico sugere que troque “cagasse em cima de mim” por “defecasse em cima de mim”. Sugestão sem fundamento. Não ficaria tão bom. Não causaria o mesmo efeito.

Quanto ao cara do banco? Continuou lá sentado, tranquilo, fumando o cigarro e esperando alguma coisa acontecer.

Se ele apareceu de novo pela praça? Não sei. Nunca mais passei por ali.

Se costumo reler as merdas que escrevo para esta coluna? Não. Nem pra revisar. Mando como sai.

Se limpo a bunda depois de soltar um barro? Sim, sempre que possível.

Qual o número do meu sapato? Não uso sapatos.

Em 30 de março de 2022, confira aqui ARQUIVOS EXPLÍCITOS #4. 

Até lá!


 

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

ARQUIVOS EXPLÍCITOS #2 - Contos e crônicas da opera Rock do terror cotidiano.

 

Bem vindo ao segundo ARQUIVOS EXPLÍCITOS.

Relaxe, meu amigo.

Por Fabio da Silva Barbosa

01/02/2022

08h:30min

Sentou na frente da tela e posicionou os dedos sobre o teclado.

Não veio nada.

Resolveu esticar um pouco as pernas e recostou-se, meio que se jogando, nas costas da cadeira. Jogou os pés sobre a mesa e cruzou os membros.

Abriu o fecho e puxou o membro.

Segurou firme.

Tudo certo e em posição de sentido.

Começou o trabalho.

Desequilibrou.

Bateu de cabeça no chão.

Atingiu um lugar inadequado.

O sangue vazou,

escorreu...

Leves tremores.

A boca ficando branca.

Tudo apagando.

Uma leveza calmante tranqüilizava a dor aguda.

A hora finalmente chegou.

 

Mais um escritor morre cumprindo seu importante dever.


Em 15 de março de 2022, confira aqui ARQUIVOS EXPLÍCITOS #3. 

Até lá!

domingo, 13 de fevereiro de 2022

ARQUIVOS EXPLICITOS #1 - Contos e crônicas da opera Rock do terror cotidiano.

 
Há tempos atrás, tínhamos aqui uma coluna chamada “Navalha na Carne”, publicamos alguns textos de autores diversos, mas devido a correria do dia- a- dia, não conseguimos colocar mais conteúdos e ficou para trás nas postagens do Metal Reunion Zine.

Em 2022, temos a honra de iniciar a coluna “ARQUIVOS EXPLÍCITOS - Contos e crônicas da opera Rock do terror cotidiano.”

Coluna que trará textos do poeta, escritor e locutor, Fabio da Silva Barbosa.

Entao vamos ao nosso texto inaugural. Boa leitura.

 Vômitos insólitos:

Fico imaginando alguma forma de me infiltrar e colaborar para o desconforto, para desacomodar e incomodar quem quer ficar fingindo que está tudo bem. Tanta gente mais sensível  se matando por simplesmente não suportar o que nos oferecem como as melhores opções... Um desejo de não se enquadrar nessa insanidade normalóide.... A sede pelo autoconhecimento... Então foi se formando, se construindo, a coluna ARQUIVOS EXPLÍCITOS - Contos e crônicas da opera rock do  terror cotidiano. A ideia é estar aqui, de quinze em quinze dias, descascando a banana atômica na frente de quem quiser ver. Um trabalho voltado a raiva, aos vícios, a pornografia e a tudo o mais que você finge que nem existe... Coisa de gente doente que fica imaginando perversões alienígenas. Um convite para você entrar no subterrâneo pútrido do horror ordinário, comum, corriqueiro... A cada coluna, aquela sensação de ter sido atingido na boca do estômago.... e o vômito quente sendo expelido entre os dentes.... Somente contos, crônicas e merdas em geral imaginadas para estragar sua quinzena.  Abriremos o trabalho com AZEDUME, essa terrível história de dor.

 AZEDUME

Por Fabio da Silva Barbosa

Gastou novamente o pouco dinheiro que tinha com drogas de qualidade duvidosa.  Deixou para abrir a bucha quando a ponta já tivesse queimado os dedos e a própria boca. Esticou três linhas grandes – Lacraias bailarinas e sedutoras. A trilha sonora já estava organizada.  A banda portuguesa “Vômito” jorrando “Eu não quero” por toda a eternidade. Terminava e começava sempre de novo e de novo.

Mandou a primeira enquanto ouvia a mensagem.

“Eu não quero ser soldado

Eu não quero ser soldado

Eu não quero ser soldado

Eu não quero ser soldado”

Não sabia como iria sobreviver sem álcool e cigarros nos próximos dias. Não tinha uma moeda se quer... e mesmo se tivesse... Impossível aquentar as coisas como estão.
Pensou em um milhão de coisas ao mesmo tempo. Resolveu partir pra segunda. O prazer e o desconforto copulavam freneticamente no galope do sexo selvagem.

Lembrou da garrafa de cachaça que estava pelo final. Ainda restava quase uma dose.

Virou a garrafa de cabeça para baixo e sacudiu para ver se saía mais alguma coisa. Só faltou torcer.

Revirou as gavetas para ver se encontrava alguma boleta perdida.

Pensou no momento em que vivia. Governo assumidamente autoritário (A diferença histórica consistia nesta palavra: assumidamente), crise, repressão, pandemia... Só amargor.

E nas caixas de som continuava martelando a mensagem punk libertária:

 

“Eu não quero ser soldado

Eu não quero ser soldado

Eu não quero ser soldado

Eu não quero ser soldado”

Olhou para a terceira linha. Era a vez. Fuuuunnnnngggggaaaaaa....

 

Fim do primeiro ato.

Fim de mais uma noite.

Desce a cortina sobre o corpo convulsivo e a mente agoniada.

Fica o desejo de quero mais.

Mas nas caixas continua sendo gritado aquele desejo mais puro... Sendo berrada aquela afirmação que seria a única certeza.

 

“Eu não quero ser soldado

Eu não quero ser soldado

Eu não quero ser soldado

Eu não quero ser soldado”

 

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*Fabio da Silva Barbosa atua em diversas frentes. Lançou e-books, livros, zines, jornais, PDFs... veículos de comunicação em vários formatos. Organizou eventos, faz programas de rádio, produziu vídeos... Entre suas realizações está o zine Reboco Caído. Este zine ganhou o prêmio Fanzine 2016, no segundo Gibifest de Alvorada, em 2017. O Reboco Caído circula em versão impressa e digital, já conta com mais de dez anos de existência e passou do número 60. Além do trabalho solo, Fabio atua em coletivos e fundou com Diego El Khouri a Editora Merda na Mão.

 

Fonte

Metal Reunion Zine