Metal Reunion Zine

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terça-feira, 16 de maio de 2017

Abril Pro Rock 2017 - Resenha de Show

Abril Pro Rock 2017
Evento: Abril Pro Rock 2017
Local: Classic Hall. Olinda/PE

1º dia
28/04/2017 (sexta-feira)

Bandas:
- Diablo Angel (Rock – PE)
- Serrapilheira (Rock – PE)
- Saga HC (Hardcore – PE)
- Camarones Orquestra Guitarrística (Instrumental – RN)
- Tiger Army (Psychobilly – EUA)
- Suicidal Tendencies (Thrash Metal/Crossover – EUA)
- Death (Punk Rock – EUA)

Resenha e fotos: Valterlir Mendes

O final de semana do Abril Pro Rock começou tenso, apesar de ocorrer num feriadão, já que o feriado do Dia do Trabalhador (não se sabe até quando haverá esse feriado) ocorreria na segunda-feira. A tensão se deu em razão da Greve Geral (legítima, diga-se, mesmo que alguns achem que greve é coisa de vagabundo, mas que adoram um feriado prolongado), que parou praticamente tudo em todo o país.

Pela primeira vez o Recife Metal Law iria cobrir os dois dias do festival, assim me dirigi à capital pernambucana logo na sexta-feira, chegando no início da manhã e mais uma vez sendo recebido por Alcides 
Burn, um dos curadores do festival e que se
mostrava um pouco apreensivo. Nada de ônibus na rua, pouca movimentação, comércios com portas entreabertas. Parecia um dia de domingo, porém sem movimento de ônibus na cidade. O que vinha causando maior preocupação era justamente o temor de uma greve dos aeroviários, que posteriormente decidiram por continuar o trabalho. Mesmo assim algumas bandas que tocariam na sexta-feira decidiram antecipar os voos, mostrando total preocupação com o seu público e profissionalismo.

Apesar de tudo, o dia foi tranquilo, sem muito alarde e tudo transcorrendo de forma pacífica, apesar de algumas queimas de pneus em pontos isolados. E assim transcorreu durante todo o dia, porém os ônibus demoraram “a rodar” e esse era o problema para boa parte do público que teria que se locomover até Olinda, cidade onde fica localizado o Classic Hall, lar do Abril Pro Rock já há vários anos.

Cheguei ao Classic Hall logo cedo, muitas horas antes do início dos shows, podendo ver algumas passagens de som. No local, além da movimentação da produção e roadies e de alguns membros de banda,
também ocorria a movimentação de diversas pessoas que montavam stand, mais uma vez bastante diversificado no festival, com todo o tipo de souvenires e praticamente para todos os gostos.

Apesar de uma mudança no estilo das bandas na sexta-feira, eu achei que o dia, mesmo com ‘cast’ trazendo algumas bandas com peso maior nas guitarras, ficou bem eclético. Não tão Pop, como outrora, mas trazendo muito de som alternativo.

Os shows, no primeiro dia do evento, estavam marcados para ter início as 21h30, e com nenhum minuto de atraso a banda pernambucana Diablo Angel deu início a maratona de show do Abril Pro Rock, em sua 25ª edição. Como era de se esperar, o público ainda era pequeno (mesmo com a greve era esperado um bom público, em razão da banda principal da noite), e chegava aos poucos. Mas quem foi pontual pode ver um bom show de Rock básico, sem exageros, com uma banda bem postada em palco, tocando sua música, por vezes despojada, tanto em inglês como algumas passagens em português. De início houve interferências na sonorização, mas foi algo que rapidamente
foi resolvido. O que mais achei curioso no Diablo Angel foi à ausência de um baixista na banda, que é um trio, composto pela vocalista/guitarrista Kira Aderne, pelo guitarrista Tárcio Luna e pelo baterista Bruno Kiss. Uma boa banda para iniciar a noite, e que pelas palavras da própria Kira, se sentiu honrada em ser a banda de abertura.

Como é tradição no tradicional Abril Pro Rock, dois palcos foram disponibilizados com a mesma estrutura de som e iluminação, assim não havia intervalos entre as bandas. As 22h00 a Serrapilheira já iniciava o seu show, tudo dentro do cronograma informado pela produção. Achei o som da banda mais viajado, trazendo algo de regionalismo em algumas passagens e com guitarras mais limpas, além do uso do violão em momentos, digamos, mais acústicos. Até algo de psicodelismo deu para notar na sonoridade da banda pernambucana. Nesse ponto o som estava muito bom, sem falhas, ainda mais pelo estilo praticado pela banda, que deixava tudo soando nítido. Mesmo que alguns riffs venham mais pesados e até mesmo algumas passagens soem mais densas, a música, cantada em português, do Serrapilheira é mais viajada mesmo. Mesmo sendo a segunda banda da noite, a movimentação do público ainda não era tão grande, assim poucos foram para frente do palco conferir o show que, diga-se, mesmo não sendo um estilo que costumo ouvir, foi bem seguro na proposta sonora da banda.

O cronograma seguia como informado, até mesmo com
o horário sendo seguido até mesmo antes do programado, como foi o caso do show do Saga HC, que teve seu início as 22h27. A banda chegou com um estilo bem diferente das duas primeiras bandas. Sendo também pernambucano, o Saga HC mudou a vertente sonora e fez um show mais agressivo, como o HC de seu nome pede. Achei a sonorização um pouco abafada no show dos caras, mas nada que atrapalhasse, mesmo que tenha deixado as linhas graves mais evidentes. Os vocais seguem uma linha mais gritada e a energia em palco foi grande, com boa movimentação. A essa altura o público já estava maior e até mesmo algumas rodas de mosh começaram a surgir, mesmo de que forma mais tímida. Foi a primeira banda que colocou o público para se mexer de verdade e seus 17 anos de atividades foram demonstrados na segura apresentação. Bom nome da cena Hardcore de Pernambuco.

Com os shows iniciais durando 30 minutos não houve qualquer atraso para que o Camarones Orquestra Guitarrística
 desse início a sua apresentação. Oriunda do Rio Grande do Norte, o nome da banda já diz muito sobre o seu estilo musical. Não chega a ser uma orquestra, mas uma banda que tem sua música feita em cima de guitarras. E guitarras foi o que não faltou no palco. Ao todo são três guitarristas, além de um baixista e um baterista. É uma banda que faz apenas música instrumental. Achei a música do Camarones Orquestra Guitarrística, de certo modo, bem pesada, bem preenchida e algumas bases flertando com a Surf Music. Em palco boa movimentação e vibração, além de uma intensa movimentação. Mas, apesar do show com bastante energia, notei que parte do público se afastou mais, indo dar uma volta no local, ver os stands ou procurar outro tipo de atração – não musical – que podia se encontrar no recinto. Mesmo com energia, sendo uma banda só instrumental pode cansar, até mesmo porque algumas músicas chegam a soar parecidas.

A primeira atração ‘gringa’ da noite veio dos EUA e atendia pelo nome de Tiger Army. Há mais de duas décadas ativa, o trio – formado por Nick 13 (vocal/guitarra), Djorde Stijepovic (contrabaixo) e Mike Fasano (bateria) - trouxe para o Abril Pro Rock o seu Psychobilly/Rockabilly
que dava bastante ênfase as linhas graves do enorme contrabaixo vermelho de Djorde Stijepovic. Os vocais, usados de forma mais limpa, por vezes fazia lembrar os antigos Country americanos. Tenho bastante curiosidade pelo estilo, apesar de não escutar com frequência e pouco ou quase nada conhecia desses americanos, mas sua música é realmente atrativa aos ouvidos. Com uma boa movimentação em palco, o Tiger Army alternou momentos puramente Rockabilly com algo realmente Psychobilly, inclusive trazendo uma grata influência do Punk Rock em alguns andamentos. E tais momentos, mais velozes, por vezes mais agressivos, foi que fizeram com que algumas pequenas rodas se abrissem em frente ao palco. Mas a música é aquele típico som da década de 60, por vezes dançantes, por vezes lembrando o Misfits, em momentos mais velozes de algumas músicas, até mesmo em razão da timbragem de voz de Nick, que chegava a se assemelhar com a de Glenn Dazing.

Um adendo aqui para falar sobre o público, que não foi tão grande, como era esperado. Talvez pelo problema com a locomoção, mas é necessário salientar que boa parte do público do Abril Pro Rock é formado por pessoas dos mais diversos
estados da região nordeste e até mesmo de cidades do interior de Pernambuco. Assim, muitos escolhem um dia para poder fazer a viagem, já que a grana, em tempos atuais, não permite, para muitos, viagens mais prolongadas ou até mesmo viajar dois dias seguidos. Ou seja, o problema, nem sempre, é nas atrações confirmadas ou porque o festival precise de uma renovação. Existem vários fatores para que o público não se apresente em grande proporção.

Então era chegada a hora da atração mais esperada da noite – quiçá do festival. Depois de muitos anos de espera e um cancelamento frustrante – e em cima da hora – em 1998, finalmente a banda americana Suicidal Tendencies, liderada por Mike Muir (vocal) e tendo, atualmente, nas baquetas o lendário Dave Lombardo, estava pisando em solo pernambucano. Uma breve “Intro” anunciou o início do show e praticamente todo o público foi para frente do palco e, para surpresa de todos, começaram logo com a clássica “You Can’t Bring Me Down”! E foi de espantar ver como toda a banda se movimenta em palco e não só o inquieto Mike. Dean Pleasants e Jeff Pogan (guitarras) e Ra Díaz (baixo) não paravam um só segundo e acompanhavam a energia emanada pelo frenético Mike. E o público respondeu a altura, seja nas rodas formadas ou nos crowds surfing constantes. Não havia muito descanso entre as músicas, a não ser pela breve conversa que Mike teve com o público antes de soltar a insana “Clap Like Ozzy”, que formou uma imensa roda na frente do palco. Interessante também ver a performance de Mike e su
as dancinhas hilárias. De início achei os vocais um tanto baixos, mas que foram normalizados durante o decorrer do show. A diversão foi imensa durante toda a exibição do Suicidal Tendencies, uma banda que é bem conhecida por toda a sua energia em palco e que, claro, emana até o público. Até houve um momento em que parte do público, na verdade as mulheres, foram convidadas para subir ao palco – acredito que em “I Saw Your Mommy”. Ficou interessante o palco com diversas garotas agitando e até formando pequenas rodas. Era, de verdade, um show para o público participar. Mike, apesar da idade e alguns quilos a mais, ainda parece aquele moleque magricela no quesito agitação. E há de se destacar a presença do lendário baterista Dave Lombardo, que trouxe alguns fãs de suas outras bandas, principalmente do Slayer.

01h45, esse foi o horário de início da última atração da noite. Um horário já avançado, tendo em vista o número de bandas e o que foi o show da banda anterior. A banda de Protopunk ou simplesmente Punk Rock Death, formada pelos irmãos Hackney: Bobby (baixo e vocal), David (guitarra) e Dannis (bateria), é uma das primeiras formações do estilo e surgiu no início da década de 1970. Mesmo assim não é um nome tão conhecido e até mesmo chegou a gerar certa confusão quando foi anunciada para o festival, já que alguns desavisados acharam ser a lendária Death, do falecido Chuck Schuldiner, que estaria no evento (só não sei como tocaria sem o seu falecido mentor à frente). Uma boa parte do público começou a deixar as dependências logo após o show do Suicidal Tendencies. Mas alguns fizeram questão de conferir o último show até o final. O Death traz em sua música Punk muito da música negra dos primórdios, algumas pitadas de Funk, Soul, como ouvido em “Keep on Knocking” e “Rock-N-Roll Victim”, e mesmo o básico Punk Rock, tal como “Freakin Out”. É uma música que foge de estereótipos, na verdade, que traz diversas influências. Acredito que a banda se sairia melhor numa posição que não fosse de encerramento e logo após um show como foi o do Suicidal Tendencies.

A maratona de shows apenas havia começado. Ainda faltavam mais 11 bandas, as quais estariam se apresentando logo mais, no início da noite do sábado. Então era descansar um pouco, tentar recuperar as energias e se preparar para a “Noite Pesada” do Abril Pro Rock. Peso que começou a dar as caras já na sexta-feira...

2º dia
Data: 29/04/2017 (sábado)

Bandas:
- Evocati (Heavy Metal – PE)
- One Arm Away (Heavy/Thrash Metal – SP/PE)
- Voodoopriest (Death/Thrash Metal – SP)
- John Wayne (Metalcore – SP)
- Nervosa (Thrash Metal – SP)
- Mystifier (Black Metal – BA)
- Cockney Rejects (Oi!/Punk, NWOBHM, Heavy Metal/Hard Rock – Inglaterra)
- Matanza (Countrycore – RJ)
- Krisiun (Death Metal – RS)
- Nocturnal (Black/Thrash Metal – Alemanha)
- Violator (Thrash Metal – DF)

Resenha: Valterlir Mendes
Fotos: Rosberg Rodrigues e Pei Fon (camarim Voodoopriest)


Os shows, no sábado, sempre começam mais cedo, para ser preciso, nas últimas edições têm começado as 18h30. Nesse horário o pessoal costuma está chegando e os que chegaram costumam dar um tempo no lado de fora, seja conversando ou bebendo, já que os preços no Classic Hall são exorbitantes e, pior, com cervejas de péssima qualidade. Essa é sempre uma reclamação do público, mas que a produção não pode interferir, já que a tal bebida é a patrocinadora da casa.

Eu, como de costume, adentro ao local logo no início, antes mesmo da primeira atração começar o seu show. Um público tímido também procurou entrar logo no início, para prestigiar a banda de abertura.

Evocati deu início ao seu show pontualmente as 18h30. O público, como já mencionado, não era tão grande, como sempre ocorre nos primeiros shows, mas aos poucos foi crescendo. Boa parte dos presentes trajava camiseta da banda, mostrando que Luiz Neto (baixo), Sérgio Costa (vocal), Nenel Lucena (guitarra) e Arthur Lira (o novo baterista), já estão com vários adeptos de sua sonoridade. Não é para menos, afinal o disco homônimo de estreia é um excelente cartão de visitas, trazendo mú
sicas empolgantes. E empolgação foi o que os presentes puderam ver, desde o início. Uma banda bem ensaiada, executando com maestria suas canções. De início achei que a sonorização não estava tão boa, deixando “The Battle Will Began” – primeira música após a Intro “Genesis Bellum” – um pouco indefinida. Mas nada que pequenos ajustes não consertassem. “Death is the Reality” teve problemas nos samples, mas o show prosseguiu normalmente. A banda se mostrou bem à vontade em palco. E por falar em palco, ele estava com um visual muito bonito, com um enorme backdrop ao fundo e dois menores dos lados. Todas as músicas executadas foram extraídas do álbum de estreia e o fim veio com a Power Metal “No Permission”. Primeiro show que vi do Evocati e tomara que eu possa ver ainda muitos outros. Única banda do estilo no festival, e que fez um show de alto nível. Ah, a título de curiosidade, pude ver algumas crianças durante show do Evocati e o mais legal foi ver tais crianças curtindo e fazendo o sinal, com os dedos, tão famoso no meio Heavy Metal.

Assim como na noite anterior, nada de intervalos entre as bandas. Palcos com mesma estrutura, tanto de iluminação como de sonorização, então as 19h00 era hora do primeiro show da banda One Arm Away,
capitaneada pelo vocalista/guitarrista pernambucano Antônio Araújo e trazendo em suas fileiras Rodrigo Fantoni (guitarra), Felipe Andreoli (baixo) e Edu Garcia (bateria). A essa altura o público era um pouco maior, mas dava para notar que muita gente ainda estava faltando entrar. Nem por isso a banda se acanhou e após uma “Intro” mandaram músicas presentes no seu álbum de estreia, “Carpe Ludus”, entre elas a própria música que dá título ao álbum. O som da banda transita entre o Heavy e o Thrash Metal, com algumas linhas mais contemporâneas, aqui e ali, além de apresentar certo groove em algumas passagens. Antônio sempre teve um forte carisma, desde o seu início no Chaosphere (banda que tive o prazer de ver algumas vezes ao vivo), e soube interagir com o público, inclusive fazendo com que parte do público abrisse algumas rodas logo no início, com “One Arm Away”, “Destiny” e “Dead Eyes”. As músicas, de certa forma, são longas, carregadas de peso e certa cadência, com inserção de alguns andamentos mais velozes, aqueles que o vocalista/guitarrista pedia para que o público fosse para a roda de mosh. Ao fim o One Arm Away prestou um tributo e executou “Domination” do Pantera.

Antes de iniciar os comentários sobre o próximo show, menciono aqui que no público havia três índios da Tribo Fulni-ô, e logo quando os músicos do Voodoopriest começaram a adentrar
ao palco avistaram tais índios. Nada mais legal que uma banda que fala da luta indígena em suas letras ter três índios vendo seu show. A sua frente, nos vocais, a banda tem nada mais, nada menos, que o carismático Vitor Rodrigues, bastante conhecido por seus anos como vocalista do Torture Squad. A banda já chegou arregaçando tudo com “Dominated and Kill”, que foi simplesmente de arrepiar. Mesmo com a ausência do guitarrista César Covero, os demais músicos – Bruno Pompeo (baixo), Edu Nicolini (bateria) e Renato de Luccas – conseguiram uma impressionante massa sonora. Preciso falar que as rodas começaram a surgir? A presença de palco de Vitor é algo impressionante, só não mais impressionante que sua voz. O cara fica mais velho e a voz cadê vez melhor. “Warrior”, com samples de sons indígenas, veio na sequência, e não houve alívio. Foi um show intenso, da primeira a última música e com um Vitor sabendo como comandar bem o público. Todo o ‘set’ foi baseado em músicas do seu único disco lançado, entre elas a faixa-título, “Mandu” e “Religion in Flames”, além de “Reborn”, presente no seu primeiro EP. Foi um show que fugiu ao horário do cronograma e certamente um dos melhores da noite.

A próxima atração da noite foi a banda John Wayne, uma das representantes da leva do Metalcore brasileiro, e que por vezes intitula seu estilo como “Metal From Favela”. No momento do show recebi o
convite, juntamente com outras pessoas, para ir ao camarim do Voodoopriest. Na verdade o convite surgiu mais em razão de que seria bem interessante que os índios que estavam no palco fossem ver o pessoal da banda, já que, além de Vítor, Bruno e Renato informaram também ter descendência indígena. Foi bem interessante aconversa e empolgação dos caras da banda com os índios. A troca de experiências, curiosidades, conversa rolando naturalmente, foi tudo bem espontâneo. Depois de muita conversa e diversas fotos, rolaram agradecimentos, por partes dos integrantes das bandas aos índios, que também ficaram muito felizes com toda aquela experiência. Vi até um deles batendo cabeça depois, no fim do show do John Wayne. Muito boa (e que merece efusivos elogios) a iniciativa da professora Cris Cavalcanti em solicitar convites para os índios (Jonatas, Mateus e Ubirajara, nomes inseridos em seus registros de nascimento) poderem participar da festa e, consequentemente, da troca de experiências.

Mas ainda havia mais shows. O festival, em sua última noite da 25ª edição estava apenas começando. As 20h35 era hora de Prika Amaral (guitarra), Fernanda Lira (baixo/vocal) e Luana Dametto (bateria), trio que atende pelo
nome de Nervosa. Ganhando bastante respaldo, não só no Brasil como fora dele, a banda mostra toda essa crescente em sua musicalidade, bem descrita pelo nome da banda. Com algumas pitadas de Death Metal, o trio faz um forte Thrash Metal, trazendo certa influência germânica no som, principalmente do Destruction. Não há nada de novo na sonoridade da Nervosa, mas é um som forte, agressivo e cheio de energia. E energia não faltou no palco. Fernanda (com seu estilo lembrando algo de Conrad “Cronos” Lant do Venom) e Prika agitavam bastante, em intensa movimentação, além de furiosos riffs e solos, baixo pulsando forte, e vocais raivosos. Já a pequenina Luana foi de fazer inveja a muito marmanjo. É quase impossível acreditar que aquela menina, que parece tão frágil, espanque com tamanha fúria seu kit de bateria. E, claro, toda essa energia ‘ecoou’ no público, que se esbaldava no mosh do lado de baixo e na frente do palco. É sempre muito bom ver essa troca de energia entre bandas e público e a Nervosa mostrou bastante segurança em palco, além de uma música agressiva e que agradou bastante a boa parte dos presentes.

Não houve espaço para muita conversa e no palco ao lado, logo ao fim do show anterior, era a vez de uma banda de Black Metal do Brasil tocar nos palcos do Abril Pro Rock. Coube a lendária banda baiana Mystifier essa honra. Na verdade o Mystifier é um verdadeiro patrimônio do Black Metal nacional, apesar de não fazer muitos lançamentos, está ativo desde 1989. Hoje com uma formação que conta com o fundador Beelzeebubth (guitarra), Diego DoUrden (baixo, teclados, vocal) e
Eduardo “Warmonger” Amorim (bateria), a banda vem fazendo diversas apresentações, não só no Brasil, mas em diversas partes do mundo. Devo mencionar aqui a furiosa interpretação de Diego, já que ele não se limita a apenas vociferar temas como “Give the Human Devil His Due” ou “Osculum Obscenum”, interpretando cada som de uma forma bem peculiar e da forma que cada atentado satânico da banda merece. O ‘set’ não foi tão longo, até em razão do tempo que a banda tinha à disposição e, ainda, pelo tamanho das músicas. Músicas essas que, notei, estavam mais ríspidas, não tão atmosféricas e densas como nos discos. Por algumas vezes Beelzeebubth se comunicou com o público e, inclusive, mencionou que houve certo boicote por parte de alguns para que o Mystifier não tocasse no evento. Entre os temas próprios houve espaço para um cover do lendário Sarcófago, “Nightmare”, oferecida a diversas pessoas que estavam no público e diversas bandas da cena nacional. O público, bem junto ao palco, ficou bem compenetrado no show, sem muita agitação. Antes de anunciarem a clássica “Beelzebuth”, o guitarrista informou que a banda estaria voltando para Pernambuco no segundo semestre, para o “Visions of Rock”.

Após o profano show, era hora do Punk Rock/Oi! do Cockney Rejects tomar o seu espaço no palco. A banda é veterana no estilo e trouxe vários adeptos para o festival. Fazendo um som simples e caloroso, indo direto ao ponto, a banda destilou vários clássicos
de sua longa carreira, entre eles “Fighting in the Streets”, “We Are the Firm” e “I’m Not a Fool”. Pelo estilo praticado, obviamente, músicas curtas e diretas eram apresentadas. Achei a movimentação em palco um pouco lenta, com o vocalista “Stinky” Turner (grande fã de esportes, principalmente futebol), imitando um boxeador. Apesar de no início do show o público ficar meio tímido, parado, apenas conferindo a banda no palco, as típicas rodas começaram a aparecer, não tão grandes, já que uma parcela do público já demonstrava cansaço ou apenas descansava um pouco para os demais shows que ainda viriam. Infelizmente durante o show do Cockney Rejects ocorreu um pequeno incidente, caso isolado, de briga, mas que não merece maior menção aqui e que foi logo resolvido, sem mesmo ter uma maior intervenção da segurança. O que vale ser registrado mesmo é o belo show que a banda fez, apesar de pegar um público já cansado ou se poupando para os demais shows.

A essa altura pude perceber que ainda chegava público e molhado, já que fora caía uma forte chuva. E uma chuva bem vinda, afinal deu uma amenizada no calor. O Classic Hall conta com um sistema de ar condicionado, que ameniza, é certo, mas não é tão potente como deveria ser. Ainda no local pude dar uma volta e conferir outras atrações, como um local para o pessoal “bater cabeça” com uma coqueteleira e preparar sua própria caipirinha. Esse ano houve poucas ações nesse sentido.

Voltando aos shows, o Matanza seria a próxima atração da noite e praticamente todo o
público se amontou junto ao palco. A pista ficou praticamente tomada e com músicas que fazem parte do ‘set’ da banda há bastante tempo, a agitação foi garantida da primeira a última música tocada. Praticamente sem intervalo entre as músicas, com o vocalista Jimmy London se comunicando pouco e mandando ver nos clássicos da banda, as rodas (imensas, por sinal) tomaram conta do local. “A Arte do Insulto”, “Eu Não Gosto de Ninguém”, “Carvão, Enxofre e Salitre”, “Pé na Porta, Soco na Cara”, “Quanto Mais Feio”, “Remédio Demais”, “Clube dos Canalhas”... Essas foram apenas algumas das músicas presentes no ‘set list’ do Matanza e que agradaram em cheio grande parcela do público. Deu para notar, sem qualquer dificuldade, que boa parte do público estava ali, presente, em razão do Matanza. Alguns criticaram a escalação da banda para o festival (sempre eclético em seu ‘cast’, inclusive na “Noite Pesada”), pedindo outros nomes, mas que não teriam o mesmo apelo de um Matanza. Enfim, um show intenso do primeiro ao último minuto, com boa parte do público agitando, também, do primeiro ao último minuto.

O evento estava chegando ao fim e as últimas bandas tiveram um tempo maior de shows. Um dos maiores nomes do Death Metal nacional – na verdade o maior nome do Death Metal nacional –, Krisiun, foi escalado de última hora, porém
não subiu ao palco apenas para “tapar buraco”. Um show dos gaúchos é sempre uma aula de brutalidade, de técnica, de pancadaria absurda, por vezes. É certo que a banda diminuiu a velocidade de suas músicas de uns anos para cá, mas isso não quer dizer que sua música ficou menos brutal. Uma “Intro” anunciou a entrada dos irmãos Kolesne – Alex (baixo/vocal), Max (bateria) e Moyses (guitarra). De início o público ficou mais parado, como se estivesse assistindo a uma aula – e que aula! – de extremismo. A sonorização estava excelente, deixando a parte instrumental bem audível, assim como os vocais. A banda tem uma longa discografia e fica quase impossível condensar num ‘set’ de uma hora todos os seus clássicos, mas o público foi atacado com pedreiras como “Combustion Inferno”, “Blood of Lions” e “Ravager”. Ainda houve tempo para um pequeno solo de bateria de Max e uma surpresa para o público pernambucano. No cover para “Aces of Spades” do Motörhead, que transformou a pista num caos, a presença do guitarrista do Decomposed God, Marco Antônio. O fim veio com a clássica e demolidora “Black Force Domain”. Com o Krisiun em palco sempre vem a certeza de um show grandioso!

O Abril Pro Rock estava chegando ao fim. No palco uma banda que nos remetia a alguma caverna do Underground surgida na década de 80. Vomitor (baixo), Avenger (guitarra), Skullsplitter (bateria) e Invoker (vocal), ou seja, a banda alemã Nocturnal, pegou um público já cansado e mesmo que seu Black/Thrash Metal seja adequado para se formar boas
rodas de moshes e agitar sem parar, a banda não conseguiu seu intento. Mas isso não significa que a banda poupou em sua musicalidade furiosa, veloz, por vezes densa em alguns sons. Foi um ‘set’ que variava momentos mais doentios com músicas de andamentos mais compassados, descaradamente influenciadas por estilos como – já mencionado - o Black e o Thrash Metal dos anos 80. Só achei que a sonorização para a banda veio um pouco abafada. Talvez até mesmo a pedido da banda, já que é um estilo que pede um tipo de som mais ‘sujo’. Achei inteligente a escolha do ‘set list’, que procurou variar velocidade e rispidez com momentos mais compassados, mas pegando um público já cansado, com muitos largados pelo local, a receptividade não foi tão calorosa. Uma pena.

Estávamos chegando ao fim e, apesar do já relatado cansaço do público, uma boa parcela ficou até o final. Sabemos que finalizar um festival como o Abril Pro Rock não é coisa fácil. A missão ficou para os candangos
do Violator. Eu, sendo bem sincero, não sou o mais adequado a fazer uma análise profunda, enriquecendo em detalhes o que é um show feito por Poney (baixo/vocal), Capaça e Cambito (guitarras) e Batera (bateria), já que os acompanho desde que eram Pedro, Pedro, Márcio e David, respectivamente, e nunca consegui ficar apenas observando os shows desses caras. Então, dessa vez não foi diferente e fui pro mosh! Poney incitou: “não é fácil encerrar um evento como esse, mas aqui ficou apenas as carniças, o submundo, a corja do Underground. Tá liberado e vamos quebrar essa porra!”. “Death Descends (Upon This World)” começou o inferno Thrash Metal, logo seguida de “Atomic Nightmare”, com uma grande roda se formando. Alguns se amontando em frente ao palco, crowd surfing, bangin’... Não faltou agitação, tanto do público, como da banda. E os anos tocando nos mais diversos lugares e festivais deixaram o Violator bem à vontade. Poney, como é de praxe, sempre se comunica muito com o público, explica o que cada música significa e empurra o dedo na ferida. “Lamentável ver essa juventude criticando uma banda que faz uma música que critica a ditadura e político que aclama a volta da ditadura”, e mandam a nova “False Messiah”, com descarada influência do velho Slayer. Pancadaria sonora e muitos escorregões no molhado e perigoso piso do Classic Hall. Eu já vi muitos shows do Violator – todos que eles fizeram em Pernambuco e outros em outros Estados -,
mas nesse a banda estava beirando a perfeição em palco. Foi o melhor show que vi da banda! Só faltaram os clássicos do primeiro EP para tornar o show perfeito. Mas não faltaram “Toxic Death”, “Futurephobia” e “After Nuclear Devastation”, além de mais uma nova: “Infernal Rise” (será que ouvi alguma influência do Possessed nesse som?). “Não esperem que o Violator esteja a favor da atual situação do país. Nós sempre estaremos a favor das minorias, dos negros, pobres, gays, mulheres... Estamos num patamar que mandamos o foda-se!”. O público estava insano. As palavras incitavam ainda mais as rodas e invasão do palco. Foi um show de encerramento fantástico e, até hoje, o melhor de todos. Ah, não faltou o “foda-se todos! Sejam livres! Foda-se... (quem acompanha a banda sabe quem eles mandaram e sabem do que se trata a música ‘False Messiah’)”. Para finalizar: “Ordered to Thrash”, “Destined to Die” e “UxFxTx (United For Thrash)”. Baixo jogado no chão, microfone caindo, stage diving de Poney e um show para encerrar com chave de Metal a 25ª edição do Abril Pro Rock.

O público, nessa segunda noite, acredito, foi praticamente o dobro do que foi na primeira noite. Talvez fatores como greve geral, falta de ônibus, entre outros possam ter provocado isso. Mas o mais certo é que o Heavy Metal e os estilos mais pesados tem um apelo maior junto ao público.

Isso vem ocorrendo há vários anos. Alguns, nas redes sociais, reclamaram de algumas atrações, mas são atrações que, tá na cara, levam o público. Há anos a produção abre espaço para atrações diversas e públicos diferentes, mas, também, espaço para o Underground, como o próprio Paulo André (produtor) falou numa conversa informal na primeira noite do festival. Até falou numa banda que vem tentando trazer faz quatro anos, mas que é de difícil negociação. Enfim, o festival não precisa se reinventar, uma parcela do público precisa começar a ver o quão importante o Abril Pro Rock é para o cenário Underground local, apesar de não ser especificamente destinado ao Underground. E apesar dos cancelamentos, tudo ocorreu de forma tranquila. Por fim agradeço a toda a produção pelo espaço novamente cedido ao Recife Metal Law e grande atenção dada por Laiziane Soares, que foi bastante atenciosa durante os dois dias de festival. Até a 26ª edição!

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