Por fim, nem ouvia mais o que Silvan dizia. Ficava só olhando para a cara dele com ar interessado e balançando a cabeça afirmativamente enquanto pensava se explodia e botava logo para correr ou se arrumava uma desculpa qualquer para dispensar o chato sem me desgastar tanto. E como era chato. Eu tinha esquecido o quanto era. O tempo todo falando sobre si mesmo. O eu no centro do mundo. E a palavra artista sempre voltando a ecoar como se fosse grandes merdas, um título de nobreza, uma espécie de elite. E a cachoeira de palavras fáceis e frases feitas não parava. Vez por outra eu pescava alguma coisa do que estava sendo dito e percebia que era melhor voltar a abstrair. Ele realmente devia gostar muito da própria voz. Agora falava sobre a série de auto retratos que começaria a produzir. Sempre o grande artista no centro do universo.
E da-lhe bla bla bla...
Em certo momento, levantei de um salto.
-A conversa tá muito boa, mas lembrei que tenho um compromisso.
Ele continuou sentado e me olhou com ar surpreso.
-Mas estava pensando em...
-Foi um prazer receber uma visita tão ilustre, nas a hora é essa. - Atropelei sem deixar concluir mais uma frase que fosse. Peguei o mala pelo braço, praticamente arrastando o traste até a saída.
Sivan ainda tentou dizer algo, mas não dei oportunidade. Chegando do lado de fora, dei um até breve acompanhado de tapinhas nas costas e é isso. Livrei-me do grande saco de merda.
Voltei para onde estava sentado e respirei aliviado. Consultei o velho aparelho telefônico e li algumas mensagens que haviam chegado. A tela rachada e o fato de ter quebrado meu óculos atrapalhava bastante o entendimento das palavras, mas consegui decifrar uma que me informava sobre a vaga em um quartinho que estava de olho. Era um bairro mais movimentado da cidade, menos tranquilo, chato e monótono. Claro que não era nada que parecesse com o agito dos grandes centros que estava acostumado, mas tinha esperança de me livrar dos mugidos das vacas e das nuvens de mosquitos onde quer que fosse.
Por sorte, aquelas férias no inferno já estavam com os dias contados. Já havia começado a organizar meu retorno para os perigos e incertezas que nos brindam a vida urbana, recheada de caos e problemas mil.
Enfim estaria longe deste ambiente tragicamente monótono. Buscava apenas passar os últimos tempos daquela aventura infame sem o silêncio ensurdecedor cortado, vez por outra, por sons repetitivos e que não me excitam em nada.
Logo logo, estaria me sentindo em casa, de volta a incerteza diária na guerra cotidiana. Não via a hora.
Por Fabio da Silva Barbosa
Foz do Iguaçu - PR
Outubro de 2025

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