Nestas férias no inferno, fui visitado por alguns amigos e conhecidos que passaram pela região. Pessoas que não via há muito tempo e que aproveitaram a passada para trocar uma ideia. Entre eles estavam artistas, vagabundos, beberrões e criaturas grotescas em geral.
Um dia Silvan apareceu do nada pelo buraco que me servia de residência temporária. Ele se rotulava como artista. Adorava se definir assim. Emprestava uma importância canalha a palavra.
Silvan não conheceu o pai e a mãe sumiu no mundo quando ele ainda era pequeno. Foi então criado pela avó, que tinha de trabalhar em várias escolas como professora para conseguir pagar as contas. Sempre achei bizarra a situação dos professores que atuavam na base do ensino. Condições de trabalho precárias e um salário que não cobria os gastos com o básico.
A avó proporcionou, a Silvan, o acesso ao conhecimento, a informação, a arte... a cultura de uma forma geral. O menino, com muita dificuldade de se relacionar e desinteresse total por futebol e outras atividades que preenchiam o tempo dos da sua idade, se refugiava no mundo apresentado pela avó.
Mesmo tendo desenvolvido certo grau de criatividade devido ao contato com os livros e as várias formas de expressões artisticas que teve acesso, nunca foi um gênio, muito menos um grande conhecedor de suas limitações. Foi desenvolvendo alguns sintomas arrogantes e se achando grandioso. Uma patologia talvez desenvolvida para se defender das frustrações e da baixa autoestima.
Começou a surrupiar detalhes das obras que tinha acesso e criar uma espécie de salada, misturando características de pessoas que sobressaíram de alguma forma no meio artístico e clichês superficiais que serviam para qualquer coisa.
Foi crescendo e aumentando seu acervo de imitações de pequenos pontos roubados aqui e ali.
Não perdia uma chance de aparecer. Qualquer podcast que o chamasse, por mais ridículo que fosse, era abraçado como uma oportunidade de mostrar a colcha de retalhos copiados que chamava de sua grande e diversificada obra. Dizia que era uma forma de ocupar espaços. Conseguia deturpar conceitos sólidos, distorcendo os significados até caberem em seus interesses egocêntricos.
-Como você me descobriu aqui?
-Peguei algumas dicas que você me deu em nossas conversas e fui me informando. Não é difícil descobrir o paradeiro de alguém de fora nesse cu de mundo em que você se meteu.
-E o que você faz por estas bandas?
-Estou divulgando meu novo trabalho pela região, tinha agenda em uma cidade vizinha e aproveitei para dar uma passada.
-Do que se trata esse novo trabalho?
-Algo bem conceitual, que mistura minhas influências simbolistas e concretas, trazendo o abstrato e a psicodelia hippie junto com a crônica suburbana punk e a resistência periférica RAP. Algo que reúne barulhos psíquicos, cinema revolucionário e arte rupestre de alta tecnologia. Cultura esotérica e escatologia interagindo de forma harmônica e singular.
Que capacidade verborrágica de falar falar e não dizer nada. Era um especialista em apresentar tudo que já existe como algo inteiramente novo.
E continuou:
-Tem fotografia coberta com tinta óleo e aquela aplicada a superfícies Inusitadas. Pirotecnia e audiovisual no mesmo espaço. É a união do meu trabalho no campo do design gráfico sem perder minha veia de artista plástico.
-Artista de plástico.
-O que você disse?
-Não disse.
Mal acabei de responder e ele começou a falar sobre suas participações em programas internéticos e a importância de se estar antenado nas novas tecnologias. De como as redes sociais são...
-Acho isso tudo uma merda.
Eu e minha boca grande. Agora ele começou a me soterrar com uma fala cansativa e insistente sobre como me saboto estando fora dos meios digitais e de como o virtual... Bla bla bla...
-Sempre achei a vida chata, mas atualmente ela tem sido pior que nunca. - Pensei em voz alta
-Que nada, cara. A vida é um tesão!
Ele tinha um jeito idiota de falar, sempre tentando ser o descolado, o diferentao. Que figura cansativa e irritante. Um egocêntrico que usa palavras como coletivo apenas para se travestir de revolucionário. Até um diálogo vira um monólogo com o senhor umbigo.
Tentei mudar de assunto e perguntei como ele fazia para produzir tanta coisa ao mesmo tempo.
-Inteligência artificial, cara. Tanto meus últimos quadros, quanto meu último cd são frutos da interação com a inteligência artificial.
-Então é a máquina produzindo, não você.
-Mas as ideias saem todas da minha cabeça.
-Ideia todo mundo tem, mas o artista se diferencia exatamente pela habilidade de organizar essas ideias e trazê-las para o mundo concreto.
-Ah.. Você sofre muito com bobagem. Isso é detalhe. Agora comprei um aparelho que vou falando e ele escreve.
-Então a máquina é o escritor?
-Isso é economia de tempo. Ela escreve o que estou dizendo. Daí não tenho de perder tempo escrevendo.
-Primeiro vieram os escritores que não gostavam de ler, agora os que acham perda de tempo escrever. Realmente prefiro ficar fora dessa tal evolução.
...
E assim caminha a coisa. O cara que nunca criou e sempre copiou, agora nem precisa fazer. Deve ser realmente um mundo maravilhoso para esse tipo de gente.
Por Fabio da Silva Barbosa
Foz do Iguaçu - PR
Outubro de 2025

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