Metal Reunion Zine

Blogzine fundado em 2008. Reúne notícias referentes a bandas, artistas, eventos, produções, publicações virtuais e impressas, protestos, filmes/documentários, fotografia, artes plásticas e quadrinhos independentes/underground ligados de alguma forma a vertentes da cultura Rock'n'Roll e Heavy Metal do Brasil e também de alguns países que possuem parceiros de distribuição do selo Music Reunion Prod's and Distro e sua divisão Metal Reunion Records.



sábado, 16 de maio de 2026

ARQUIVOS EXPLÍCITOS - TEMPORADA 5 - DE FÉRIAS NO INFERNO #20

 

Mesmo em um lugar chato e tranquilo como este que escolhi como exílio, conseguimos encontrar pessoas extremamente loucas. Eles estão por toda a parte. Os bárbaros, os que não se encaixam, os que se recusam a se adequar, os que acham desinteressante fazer parte. Não os que fazem de conta como Silvan, só para ostentar um título ou aparecer. Falo dos autênticos, dos que são verdadeiramente devotos da desordem. Pessoas como Grande J, Baiana, Esquisito, Trava... Entre outros que já brilharam por aqui. Eles perturbam a paz e não deixam o tédio fincar sua fétida bandeira no cotidiano. A viagem por este inferno me proporcionou conhecer lugares curiosos e pessoas pitorescas. Lembro de M. gritando de madrugada que estava emocionado por ter conseguido transar, de G. emprestando o carro para Menino Louco e minutos depois a polícia seguindo a toda na direção para onde Menino Louco tinha ido. Menino Louco demorou dias para reaparecer com o carro todo amassado. De A. quebrar todo o bar por terem roubado seu celular e horas depois encontrar o aparelho em seu bolso. Mas estar indo embora dava um sentido especial aquilo tudo. Momentos de chegadas e despedidas sempre trazem um clima especial. Melancolia e euforia... Entre outras coisas. O grande circo FSB acaba sua temporada em mais um ponto da terra devastada. É hora de baixar a lona e seguir em frente. Depois de tudo organizado, é chegada a hora de bagunçar para começar tudo de novo. Nunca deixar o fantasma do comodismo criar a maldita zona de conforto e transformar nossa bunda em rala e mole polenta sem sal. Na verdade, não estou deixando o inferno. Estava escolhendo em qual deles preferia passar a próxima temporada. São os famosos círculos do inferno. Há quem questione a ideia de escolha. 

Talvez sejamos apenas bolas de merda rolando ao acaso e acreditando que escolhemos algo só para nos sentirmos menos desconfortáveis. 

Joguemos os dados e vejamos em qual deles iremos parar agora.

 Fabio da Silva Barbosa

Foz do Iguaçu - PR
Outubro de 2025

sexta-feira, 1 de maio de 2026

ARQUIVOS EXPLÍCITOS - TEMPORADA 5 - DE FÉRIAS NO INFERNO #19

 

Por fim, nem ouvia mais o que Silvan dizia. Ficava só olhando para a cara dele com ar interessado e balançando a cabeça afirmativamente enquanto pensava se explodia e botava logo para correr ou se arrumava uma desculpa qualquer para dispensar o chato sem me desgastar tanto. E como era chato. Eu tinha esquecido o quanto era.  O tempo todo falando sobre si mesmo. O eu no centro do mundo.  E a palavra artista sempre voltando a ecoar como se fosse grandes merdas, um título de nobreza, uma espécie de elite. E a cachoeira de palavras fáceis e frases feitas não parava. Vez por outra eu pescava alguma coisa do que estava sendo dito e percebia que era melhor voltar a abstrair. Ele realmente devia gostar muito da própria voz. Agora falava sobre a série de auto retratos que começaria a produzir. Sempre o grande artista no centro do universo. 
E da-lhe bla bla bla... 
Em certo momento, levantei de um salto. 
-A conversa tá muito boa, mas lembrei que tenho um compromisso. 
Ele continuou sentado e me olhou com ar surpreso. 
-Mas estava pensando em... 
-Foi um prazer receber uma visita tão ilustre, nas a hora é essa. - Atropelei sem deixar concluir mais uma frase que fosse. Peguei o mala pelo braço, praticamente arrastando o traste até a saída.
Sivan ainda tentou dizer algo, mas não dei oportunidade. Chegando do lado de fora, dei um até breve acompanhado de tapinhas nas costas e é isso. Livrei-me do grande saco de merda. 
Voltei para onde estava sentado e respirei aliviado.  Consultei o velho aparelho telefônico e li algumas mensagens que haviam chegado. A tela rachada e o fato de ter quebrado meu óculos atrapalhava bastante o entendimento das palavras, mas consegui decifrar uma que me informava sobre a vaga em um quartinho que estava de olho. Era um bairro mais movimentado da cidade, menos tranquilo, chato e monótono. Claro que não era nada que parecesse com o agito dos grandes centros que estava acostumado, mas tinha esperança de me livrar dos mugidos das vacas e das nuvens de mosquitos onde quer que fosse. 
Por sorte, aquelas férias no inferno já estavam com os dias contados. Já havia começado a organizar meu retorno para os perigos e incertezas que nos brindam a vida urbana, recheada de caos e problemas mil. 
Enfim estaria longe deste ambiente tragicamente monótono. Buscava apenas passar os últimos tempos daquela aventura infame sem o silêncio ensurdecedor cortado, vez por outra, por sons repetitivos e que não me excitam em nada. 
Logo logo, estaria me sentindo em casa, de volta a incerteza diária na guerra cotidiana. Não via a hora.

 Por Fabio da Silva Barbosa

Foz do Iguaçu - PR
Outubro de 2025