Metal Reunion Zine

Blogzine fundado em 2008. Reúne notícias referentes a bandas, artistas, eventos, produções, publicações virtuais e impressas, protestos, filmes/documentários, fotografia, artes plásticas e quadrinhos independentes/underground ligados de alguma forma a vertentes da cultura Rock'n'Roll e Heavy Metal do Brasil e também de alguns países que possuem parceiros de distribuição do selo Music Reunion Prod's and Distro e sua divisão Metal Reunion Records.



quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

ARQUIVOS EXPLÍCITOS - TEMPORADA 5 - DE FÉRIAS NO INFERNO #8

 

     O Grande J era um especialista na arte de sobreviver sem emprego. A simples ideia de uma carteira assinada, um chefe, hora marcada e coisas do tipo, o fazia ter calafrios de nojo. Então estava inteirado em todos os pequenos golpes e brechas do sistema que permitissem uma vida com o suficiente para pagar seu quartinho e por comida na geladeira, além de seu estoque de cerveja e bebidas destiladas. Maior que seu amor pela liberdade, só mesmo sua sede.
Como de hábito, ligou-me tarde da noite.
-Fala, meu amigo. Afim de vir aqui em casa para tomar uns goles? - Grunhiu a voz ébria, com a língua pastosa tropeçando em si própria.
-Aguenta firme, parceiro. Estou a caminho.
A casa dele ficava algumas quadras abaixo. Enquanto caminhava pela rua mal iluminada, pensava que o Inferno até que não era um local tão ruim. O ser humano é realmente muito adaptável. Aos poucos vamos conhecendo as pessoas e lugares certos.
Tirando alguns cachorros que apareciam do nada tentando arrancar um naco da minha perna, foi uma caminhada tranquila para pensar e aproveitar o clima agradável que a noite criava. O calor infernal que fazia desde minha chegada, enfim deu uma trégua.
Cheguei perto do portão e gritei baixinho pro Grande J saber que eu já havia chegado.
Diante da demora, gritei um pouco mais alto. Após mais algum tempo, ele apareceu cambaleando pelo quintal. Veio até o portão com ar desconfiado. Parecia não estar me reconhecendo. Apenas quando chegou bem perto abriu um sorriso.
-Seu grande filho da puta... - Cumprimentou em um tom de voz alto demais para o horário.
-Penseique já tinha pegado no sono. - Comentei em um tom de voz baixo.
Mal acabei de falar, Grande J olhou em volta e fez sinal de silêncio. Abriu o portão após muita dificuldade em acertar o buraco da fechadura. Ao entrar, senti seus grandes braços me dando uma gravata, em um abraço sufocante.
-Seu grande filho da puta... - Comemorava enquanto me arrastava pelo quintal com o braço ainda em volta do meu pescoço.
 - Seu grande filho da puta... - Continuava a gritar até chegarmos em seu quartinho, a terceira porta do quintal (Só um parenteses: O que convencionamos a chamar de quintal, estava mais para um longo corredor a céu aberto, por onde todos passavam para chegar ao seu cubículo)
-Olha o barulho, seu velho bêbado. Tem gente que trabalha amanhã cedo. -;Antes de entrarmos, ouvimos uma voz gritando de algum dos quartos que vinham na sequência.
Grande J pensou em retrucar, mas o puxei para dentro e fechei a porta.
-Não liga para estes fodidos.
O quarto de Grande J mal dava para caminhar.  Em uma das paredes ficava a cama que também servia de sofá, na da frente um pequeno roupeiro caindo aos pedaços, na que dava de frente pra porta uma pequena geladeira caindo ais pedaços. Entre as roupas e demais pertences espalhados pelo chão, haviam garrafas de bebidas variadas e latas de cerveja amassadas. Grande J começou a inspecionar cada garrafa em busca de algo que tivesse sobrado. Virou uma sobre a língua estendida, mas não caiu mais que uma gota. Olhou em volta procurando alguma solução. De repente pareceu lembrar de algo importante. Olhou em baixo da cama, fez que sim com a cabeça e meteu a mão para buscar o tesouro encantado. Um grande pote de vidro cheio de cachaça com umas frutinhas que não consegui reconhecer o que eram.
Deu um super gole no proprio pote, deixando escorrer um pouco do líquido pelo queixo, rolando pelo pescoço e molhando a gola da camisa. Passou o braço pela boca, na tentativa de enxuga-la. Em seguida me passou e sorvi a bebida apenas em quantidade suficiente para sentir o sabor forte e marcante.
-Bebe essa merda direito, rapaz. - Ordenou de forma ameaçadora.
Esquivei-me do movimento que fez, como se fosse me dar um tapa. Mas ele parou o movimento no ar e abriu um sorriso. O suposto tapa virou um abraço e ele beijou o topo da minha cabeça.
-Você é meu irmão, porra! - Sentenciou como quem fala uma verdade universal.
Um barulho se fez ouvir no portão que dava pra rua. Ele fez menção de levantar, mas teve dificuldades. Pedi que deixasse que eu mesmo veria o que era e passei o pote de volta pra ele.
Abri a porta e dei uma boa olhada para o portão. Logo reconheci a Baiana tentando pular pra dentro. Fiz sinal para ela esperar e me virei pro Grande J, pensando em informar sobre o que se tratava, mas desisti quando vi o cara virar o pote em um gole que não acabava nunca. Ele e o pote eram um só. Não dava para saber quem estava bebendo quem.
Peguei a chave e fui abrir antes que ela fizesse mais barulho aquela hora. J estva prestes a ser despejado devido aos constantes distúrbios que causava no lugar e não precisava que acelerassemos o processo.
Mal abri o portão, ela já entrou pelo pátio a dentro, falando e gesticulando bastante. Não parava quieta. Enquanto mexia as mãos sem parar, os pés sapateavam de um lado para outro. O corpo inteiro era puro movimenro. Estava com um vestido preto bonito, decotado e curto.
Logo após apetar minha mão, perguntou se tinha um cigarro. Respondi que não, que estava duro e ela disse que achava ter um na bolsa. Abriu a pequena bolsa que estava pendurada em seu ombro e tirou várias calcinhas e sutiãs de dentro. Tinha um colã  no meio também. Tudo com muito brilho. Parecia material para uma apresentação, algum tipo de espetáculo. De repente, enquanto observava o material que estava sendo espalhado pelo chão, me deparei com os chinelos de borracha e os pés ossudos e encardidos. Subi os olhos até o vestido e apreciei todo o conjunto do contraste.
Nisso, ela tira uma carteira de cigarros amassada de dentro da bolsinha.
-Achei.
Tinha exatamente dois cigarros.
Após deliberarmos um tempo sobre a questão e analisarmos filosoficamente sob vários aspectos e pontos de vista, chegamos a conclusão que o melhor a ser feito, de acordo com a situação e as pessoas envolvidas, seria dividirmos um e guardar o outro pra mais tarde. Els acendeu o cigarro. Voltei a olhar pras coisas espalhadas no chão. Só podia ser uma espécie de show. Uma performance, talvez. Me deparei novamente com aqueles pés encardidos.
Daí escutei uma voz lá longe. Olhei pro rosto de Baiana e ela contava uma história complicada sobre ter levado uma facaozada nas costas. Daí se virava e mostrava a marca exata, o desenho perfeito da lateral de um facão.
-Isso é coisa de piranha invejosa! - Berrava no corredor.
Sugeri que de repente fosse melhor entrarmos , devido o avançar das horas e o barulho que estava sendo feito. Ela se abaixou e começou a socar os objetos que estavam espalhados pelo chão dentro da pequena bolsa, enquanto repetia a história da confusão. Sempre acrescentava uma coisinha aqui e alterava outra ali.
Quando entramos no quarto do Grande J, ela ainda lutava com as peças de roupa.
A primeira coisa que J fez ao vê-la entrar, foi pedir pra falar baixo. Não sei se foi exatamente o que ele disse, pois ele  já não articulava muito bem as palavras, menos ainda os pensamentos, mas foi o que entendi dos frenéticos movimentos feitos com as mãos.
Ela o abraçou e deu um beijo em seu rosto. Ele apertou a bunda dela. Baiana não fez caso e foi até a geladeira, pegou três latas de cerveja, entregou uma para mim, outra para ele e abriu a dela. Começou a contar pro Grande J sobre a história da briga.
-A piranha não perde por esperar. Vou matar aquela vagabunda!
-Você não mata ninguém! Só sabe falar! - Ou, pelo menos, foi o que achei que ele disse. Com as mãos continuava a pedir pra ela falar baixo.
-Olha a marca. - Dizia mostrando as costas sempre que acabava de repetir a história.
-Atup ad alhif. - Respondia Grande, fazendo lembrar aquele velho disco da Dorsal.
-Não tem uma cachaça aí não?
-Acabou. - Conseguiu enfim dizer depois de muito sacrifício, chutando em seguida o pote de vidro que jazia vazio no chão. Ela então reparou nas garrafas vazias pelo chão.
-Mas você bebeu tudo? - Perguntou Baiana sapateando de um lado pra outro, enquanto o resto do corpo convulsionava involuntariamente
-Eta meu, merda! - Ou foi mais ou menos essa a mensagem.
-Deixa de ser pão duro. Você tem uma garrafa escondida por aí.

Por Fabio da Silva Barbosa
Foz do Iguaçu - PR
Setembro de 2025